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Desejo e Reparação - CineCrítica

 
por  André Azenha


adaptado do romance Reparação, de Ian MacEwan


Quase todos em algum momento de suas vidas se arrependeram de alguma atitude. Principalmente quando ela pode ter criado uma inesperada bola de neve de acontecimentos. E quando se tenta corrigi-la e já não há mais tempo? O estrago está feito. E como repará-lo?
Aos 13 anos, Briony Tallis não tinha noção do que um simples relato falso pudesse causar, prejudicando a vida de duas pessoas amadas: sua irmã mais velha Cecilia, e Robbie Turner, filho de uma das empregadas da família.
O cenário é a Inglaterra de 1935. Briony é uma menina que escreveu sua primeira peça. Ficou apaixonada por Robbie (James McAvoy) quando ele a salvou de um afogamento. Robbie é apaixonado por Cecilia (Keira Knightley), que corresponde aos sentimentos do rapaz.
Certo dia, quando uma das primas da família é assediada por um visitante rico, a menina é a única testemunha, mas acaba acusando Robbie. O fato faz com que Robbie e Cecilia se separem. Ele vai preso, e depois é convocado para lutar na Segunda Guerra Mundial para poder deixar a prisão. Com o passar dos anos, Briony percebe a besteira que cometeu, mas as vidas dos envolvidos já estão destruídas.
O longa é o segundo da carreira do diretor Joe Wright, e pela segunda vez ele tem como protagonista Keira Knightley, em outro drama de época, por sinal, mais apurado que o anterior e ótimo “Orgulho e Preconceito”. Sem medo de arriscar, o cineasta não segue as “normas” dos filmes do gênero, e implementa sequências que mostram a mesma cena de ângulos diferentes.
A obra foi vencedora dos Globos de Ouro de Melhor Filme/Drama e Trilha Sonora e sua equipe técnica e elenco fabulosos foram indicados sete vezes ao Oscar (Filme, Atriz Coadjuvante, Direção de Arte, Fotografia, Figurino, e Roteiro Adaptado e a trilha sonora de Dario Marianelli, fabulosa, que levou o troféu da Academia com justiça o Dario realizou um trabalho que – numa grande sacada – mistura trilha instrumental com os sons das cenas, como marteladas, ou um garoto batendo uma bola na parede – a junção de música e barulho soa perfeita e cria o clima necessário para os momentos que alternam drama, romance e suspense. Já o roteiro adaptado escrito por Christopher Hampton condensa com eficiência a trama original. E a reconstituição de época (incluindo os figurinos e a excelente direção de arte) retrata com grande competência o período.
Merecem destaque ainda a fotografia de Seamus McGarvey e a direção de Wright, que criou uma das grandes cenas do ano, naquela em que o expectador flagra, através de Robbie e dois amigos na praia de Dunquerque, o horror causado à Europa pelo conflito. Esse plano sequência contou com cerca de mil figurantes (seria melhor dizer atores, pois a sintonia e a veracidade com que trabalharam parecem de profissionais experientes) em cena e mais 350 pessoas trabalhando nos bastidores.

Mas o longa não seria uma obra-prima caso o elenco não tivesse belo desempenho. Keira Knightley finalmente despe-se da aura de garota ao dar vida a uma mulher sedutora, contracenando momentos incendiários, literalmente molhada, e com cigarro na boca. Essa mudança de “perfil” foi intencional. O diretor queria que ela encarnasse Briony no fim de sua adolescência, mas a atriz pediu para interpretar Cecilia, pois pretendia se afastar do estigma de “menininha” perante o público. James McAvoy entra em sintonia com a atriz, formando um casal cuja química transcende a tela, provando ser um dos melhores atores de sua geração.
Porém é a personagem Briony que rende as melhores interpretações. Três atrizes foram escaladas para viver três épocas da vida da irmã caçula de Cecilia – e as três catalisam as atenções. A começar pela pequena Saoirse Ronan, uma das revelações dos últimos anos, lembrada pela Academia para disputar a estatueta de Atriz Coajuvante. Tal indicação também poderia ter ido tanto para a bonita Romola Garai (“Scoop”), que faz Briony aos dezoito anos, como para a veterana Vanessa Redgrave, na fase idosa da personagem.
Orçado em US$ 35 milhões, o filme abriu o Festival de Veneza e cativa cinéfilos mais ligados na parte técnica assim como o espectador em busca de uma história bem contada e emocionante – que poderia cair em lugar comum caso o desfecho (no livro dentro do livro) não fizesse a analogia com as vezes que imaginamos um final diferente para a burrada que fizemos.
Mesmo quando estamos arrependidos e tentamos consertar alguma atitude estúpida, há o costume de entregar ao acaso (ou ao destino, se preferirem) o conserto das coisas. Mas confiar no acaso é dar um tiro no escuro. Então é melhor pensar duas vezes para não atirar em alguém amado ou no próprio pé. “Desejo e Reparação” foi o melhor filme que passou nos cinemas brasileiros em 2008.
O DVD tem boa imagem widescreen anamórfico, áudio em inglês, português e espanhol e legendas dos mesmos idiomas. Nos extras, há comentários do diretor, making of e cenas excluídas.

André Azenha

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