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Martin Heidegger é absolutamente decisivo quando afirma que
a Arte é, por essência, Poesia, onde a verdade acontece como espaço de combate
ocultante/des-velante. Na sua essência repousam o artista e a obra de arte, pela
qual a verdade é posta em obra de um modo que nos transporta para além do
habitual, quer dizer, para além do cotidiano dos homens que não nomeiam, como o
Poeta, a originalidade do ser de todos os entes que são.
O poeta chileno Vicente Huidobro cita em seu discurso:
"(...) Toda poesia válida tende ao limite último da imaginação. E não só da
imaginação, mas do espírito mesmo, porque a poesia não é outra coisa senão o
último horizonte, que é, por sua vez, a aresta onde os extremos se tocam, onde
se confundem os chamados contrários.
Ao chegar a esse limite final, o encadeamento habitual dos
fenômenos rompe sua lógica e no outro lado, onde começam as terras do
poeta, a cadeia se refaz em uma lógica nova (...)." É uma poética de
construções que desafiam o leitor, convocam sua mente e sentidos. Assemelhado à
relação diante do espelho 'antes só visto através da imagem refletida no
espelho', no qual o reflexo é o inverso fiel do objeto refletido. As imagens
vão ao encontro de novos sentidos 'trazem crianças sem rostos' : Procede
a uma destruição da significação que é criação de novos significados, com seus
deslocamentos e condensações. A significação não é destruída, porém renovada. A
palavra é um caminho 'ainda não encontramos dentro de nós', o caminho
privilegiado que nos permite pensar, através do depoimento existencial que
transmite, o Ser do ente, quer dizer, o Ser daquilo que realmente é 'ávores
dançam árias', com frequência escondido no nosso discurso cotidiano 'e me
recita horizontes e margaridas sorriem', no seio do qual as palavras
perderam o seu referente primordial, remetendo umas para as outras e não mais
para o Ser.
Entrego-me na busca de Rosna Banharoli - encontro-me na
encruzilhada junto ao caminhante (Antonio Machado): não há caminho, / faz-se
caminho ao andar. / Ao andar faz-se o caminho - 'na intimidade com o tempo...
onde se olha e não se vê e meu rosto se afasta de mim. No caminho lavo meus
pecados que não alimentam a terra'.
José Geraldo Neres
50 anos, segunda idade
Minha terra está sempre
no mesmo lugar
enquanto meu rosto
se afasta de mim
Fim
Na tatuagem rasgada
Prantos e tintas
Diluem nomes e vidas
Guardados
Uns guardam roupas
Outros pactos
Há aqueles que guardam lembranças
Outros dinheiros
Ainda tem os que guardam raiva
Outros poemas
Eu prefiro, nos meus guardados,
As idiossincrasias
Ouroboros
Sob um céu sem estrelas
Luas certezas e poemas
Queimam os dias nas
Tristes horas incertas e vorazes
A deixar mentes irrequietas
Entre a razão e a ilusão
Nas horas que comem horas
do livro Ventos de Chuva - Rosana Banhoroli