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A História de José Vazio - Parte III - por Luciano Marques

Trata-se da história de um homem que perde a memória e aparece perdido numa fazenda na cidade de São Roque de Minas, Serra da Canastra.


continuação

A semelhança do novo empregado da fazenda com o São José da Sagrada Família que ficava no canto da sala, ultrapassava a aparência visual. Sempre acompanhado de suas ferramentas e usando uma espécie de tapa-olho no olho adormecido, que fora gentilmente confeccionado por dona Feliciana, mostra-se, José, muito habilidoso nos trabalhos manuais, revelando-se um verdadeiro artista no laboro com a madeira. Sem que o patrão ordenasse, talhou novos moirões para as cercas, reformou todas as porteiras velhas, reforçou o curral, fabricou pequenas cancelas para impedir que as criações entrassem nas casas e, ainda, trocou os engradamentos dos telhados de todas as residências da fazenda. A disposição de José era tanta que começa a despertar ciúmes em Argemiro, o empregado mais antigo e homem de confiança de João Clemente.
A oportunidade dada pela família Clemente sempre fora bem aproveitada por José Vazio. A lida diária, a convivência com as pessoas e o seu amor pelos animais, além de conservá-lo redivivo, servia, também, para fazê-lo esquecer do vazio que persistia em acompanhá-lo. Em suas caminhadas, depois que terminava todas as suas obrigações do dia, empreendia horas e horas escarafunchando alguma lembrança, mas, em sua cabeça, pairavam apenas as cenas da sua chegada à fazenda e de quando cruzara o terreiro cambaleando de fome e de cansaço: isto o deixava amargurado. O fato de não lembrar a própria origem fazia de José um homem seco, e, isso, aguçava ainda mais o sentimento de compaixão do seu patrão. 

Num certo feriado prolongado, João Clemente recebe em sua fazenda a visita de um dos seus confrontantes, Elias Xavier, renomado médico e cirurgião residente em Belo Horizonte, que nos finais de semana e feriados, aproveitava o clima e as maravilhas da Serra. Em conversa com o amigo e vizinho, Clemente relata a situação de José Vazio, expondo-o tudo que acontecera desde a sua chegada e, ainda, o fato de ele não enxergar do olho direito. Intrigado, Elias propôs examiná-lo no consultório que montara em sua casa, no sítio, para atender as pessoas que moravam próximas à sua propriedade. Informado sobre a conversa com o amigo médico, José Vazio fica extremamente feliz e ansioso para a consulta. João Clemente, por sua vez, sempre atencioso e preocupado com seus empregados, prontifica-se a acompanhá-lo no dia marcado. Na véspera da consulta, de tão ansioso, José não prega os olhos. Passara a noite em claro pensando que seu martírio, talvez, poderia estar chegando ao fim.
Finalmente o dia raiou na fazenda São José. O sol batia à porta da casa do retireiro. Afoito, José toma seu banho, veste a sua melhor roupa, doada pelo patrão, e, ao invés de ficar parado, de cócoras junto aos latões de leite, como fazia todas as manhãs na tentativa de resgatar alguma lembrança, vai até o casarão para avisar seu João de que já estava pronto para a consulta. “Calma, rapaz! Vai dar tudo certo”, alentava João, o empregado ansioso. Mas não havia nada que o deixasse mais calmo naquele momento. Consciente do desespero de José Vazio, Clemente também se apressa e logo estavam atravessando a porteira rumo à propriedade vizinha.
Na hora marcada, Elias, vizinho de cerca e amigo de longa data de João Clemente, abre as portas de sua casa e recebe os dois com extrema alegria. José Vazio não muda em nada seu semblante, mas, Elias, por sua vez, para por um momento, fitando aquele homem alto, magro e triste: “de onde é que conheço este homem?”, pensa o médico.

Comentários

Anônimo disse…
muito interessante o seu texto.
estava aguardando a continuação, e gostei da maneira como está fluindo tudo...
Marco Antonio
Anônimo disse…
essa coisa de semelhança é inacreditável... pois a semelhança física é uma coisa, agora quando temos uma pessoa que parece com outra, mas no jeito de ser, de agir ou falar é muito mais louco.

eu tenho um vizinho aqui que usa tapa olho e trabalha com coisas manuais.. vou chamá-lo de Vazio...rss mas antes vou falar para ele ler este teu texto
Marcelo Jota
Anônimo disse…
olá luciano...
eu continuo acompanhando sua história e gostando muito...
pamela
Luciano Marques disse…
Àqueles que tiverem interesse de receber outros textos:

buenomarques@yahoo.com.br



Anônimo disse…
Não vejo a hora de ver a continuação....

muito bom seu texto

Maria da Conceição

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