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A História de José Vazio - Parte IV - por Luciano Marques

Trata-se da história de um homem que perde a memória e aparece perdido numa fazenda na cidade de São Roque de Minas, Serra da Canastra.



III
Ninguém poderia negar: Elias ficara paralisado após bater os olhos naquele homem que acompanhava seu vizinho e amigo João Clemente. “Já vi este homem. Mas onde?”, pensa Elias. Tenta buscar na memória algo que justificasse aquela sensação de déjà vu. Pensa nas fotos de pessoas desaparecidas estampadas nas contas de luz... Talvez um dos seus pacientes da capital... Quem sabe?! Aquilo nunca lhe acontecera antes: ficar paralisado diante de um paciente. O fato é que, com certeza, Elias teria visto José Vazio em algum lugar, mas nada o fazia lembrar onde. Contudo, sua impressão não poderia, naquele momento, ser relatada – ainda que não pudesse esconder sua palidez ao ficar de frente com aquele homem enigmático -, uma vez que não tivesse certeza de nada, poderia complicar ainda mais a situação do desmemoriado. Mas, João, astuto como tal, percebera o desconcerto do amigo.
Recuperado do susto e de posse do seu estetoscópio, Elias passa a examinar José minuciosamente, da forma como sempre fez com todos seus pacientes na capital. Nada passava despercebido naquele pente fino: coração, pulmão, pressão arterial, reflexos vitais, manchas, micoses, cicatrizes e possíveis sinais de desgaste da pele que denunciassem a idade real daquele homem misterioso e calado. Sobre o olho direito de José, o médico não vira nada de errado, aparentemente. Porém, a título de sugestão, aconselhou que procurasse um médico oftalmologista para exames mais detalhados. Entretanto, com base na experiência que tivera em casos de amnésia, cogitou a possibilidade de um trauma psicológico. “Talvez, a perda da memória possa ter afetado, ainda, algum dos sentidos. No seu caso, seu José, a visão”, explica Elias. Enquanto o exame era feito, João Clemente tentava organizar suas suspeitas acerca do acontecido bem ali, diante de suas vistas. Nada lhe tirava da cabeça que Elias já conhecia José Vazio de algum lugar. “Elias descorô depois que apresentei o pra ele”, encafifa Clemente em silêncio.

Quase duas horas após o início da consulta, Elias Xavier, renomado cirurgião da capital mineira, retira da gaveta dois blocos de papel, sendo, um, de prescrição de medicamentos e outro, de pedido de exames. No receituário, o médico prescreve algumas vitaminas e um ansiolítico para diminuir a ansiedade. Na solicitação laboratorial, além dos exames de praxe, Elias solicita, ainda, tipagem sanguínea, já que, José Vazio, perdera, além da memória, o seu tipo de sangue. Terminada a anamnese, o médico convida José Vazio e seu amigo de longa data, João Clemente, para tomarem assento à mesa e o acompanharem num apetitoso lanche da tarde. A prosa rendera boas horas regadas a pão de queijo, rosquinhas de nata, queijo fresco e um café adoçado com rapadura.  Mas José, como sempre, Vazio.
O sol já se despedia da tarde quando João Clemente e José Vazio cruzam a porteira de volta à fazenda. Ambos pareciam frustrados. A verdade é que José esperava uma providência que não era cabível ao médico: um milagre. João Clemente, por sua vez, voltara intrigado, porque percebera que algo mudara no semblante do amigo depois de bater os olhos no seu empregado. Mas, por outro lado, não fora, também, um dia totalmente perdido para José, levando-se em conta algumas palavras de Elias que ainda martelavam em sua cabeça: “sua memória não está morta, seu José; está perdida. Cabe ao senhor, com muita calma, persistência e paciência, lembrar onde deixou cair suas lembranças pelo caminho”, disse o médico durante a consulta.
Noite alta ascendia estrelas no céu da fazenda São José. Aos pés da Sagrada Família, dona Feliciana, reza preocupada o terço costumeiro. O marido fora até São Roque para comprar os remédios de José Vazio e não retornara. A ansiedade da esposa, porém, não era somente pela demora do marido, mas porque recebera um telefonema que a deixara extremamente feliz, e, o quanto antes, queria compartilhar a boa notícia com seu companheiro. Desconhecendo a preocupação e a ansiedade de Feliciana, João Clemente, depois de ter ido à cidade, retorna ao sítio do amigo Elias para comprovar suas suspeitas anteriores. Sem delongas, fala ao vizinho que estranhara a reação dele depois que o seu empregado, José, ficara diante dos seus olhos. “Fala a verdade, Elias! Você conhecia o de algum lugar? Alembrô da fuça dele, num foi?”, fala João, apertando o médico contra a parede. Elias, muito sem graça, confessa que, realmente, já tinha visto aquele homem antes, mas, infelizmente, mais nada lhe vinha à cabeça. Clemente, com o paieiro apagado no canto da boca, deu-se por satisfeito e volta para casa, aturdido: “tem caroço nesse angu”, resmungava o fazendeiro.
Já na fazenda, antes mesmo de chegar à varanda do Casarão, Feliciana, duplamente ansiosa, corre de encontro ao marido no terreiro, abraça-o, beija-lhe os lábios ressecados pelo sol, e, segurando-lhe a cabeça com as duas mãos, conta-lhe chorando a novidade: “nossa filha voltando, meu velho!” Atordoado com a notícia, João Clemente esquece os problemas de segundos atrás e abraça forte a companheira. “Mas quando é que chega a nossa fia, muié de Deus?”, pergunta Clemente com o rosto encharcado de alegria e com voz embargada. “Na semana que vem”, responde Feliciana comungando da mesma emoção.   

Comentários

Anônimo disse…
comungando da mesma emoção. "

gostei disso...
pamela
Anônimo disse…
pois é caro autor... agora por causa desse texto, a turma aqui tá me chamando de josé vazio, só por causa da aparência...rss
até que estou gostando.
assinado: JOSÉ VAZIO...
Anônimo disse…
ah.. a coisa está ficando boa... o que será que tem pra frente?

que mistério envolve o josé vazio, sr. luciano? estou curioso.. será que semana que vem, temos uma resposta?!
abraços de seu leitor - marcos francisco s.o. oliveira
quer parar de mandar essa historia aos pedaços? coloca logo o valor do livro e eu quero um rsrsrsrsr
to curiosa para saber tudo do José

(KEDMA O'LIVER - enviado por e-mail)
Luciano Marques disse…
Que belas palavras numa manhã cinza de segunda-feira, minha cara Kedma O'liver! Fico muito feliz de saber que já tenho alguns valorosos leitores que comprariam meu livros. Confesso que nunca imaginei ler um comentário assim. Obrigado e boa semana!
Kedma O'liver disse…
rsrsrsrsrs
Luciano, gosto de ler, e quando uma hirtótia prende a minha atenção quero logo saber o final
Bom dia
Kedma

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