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Percalços da poesia no Brasil são debatidos em Bienal de Brasília

LÚCIO FLÁVIO

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE BRASÍLIA

A palestra teve como tema depoimento dos poetas sobre os percalços e dificuldades de se vender poesia no Brasil.
Talvez tomado pela expectativa do feriado da Páscoa, um público bastante tímido esteve presente no auditório Nelson Rodrigues, na 2ª Bienal do Livro e da Literatura, em Brasília, na última quinta-feira (17).
Segundo eles, a poesia não chega ao grande público porque há uma má vontade do mercado editorial que não trabalha estratégias objetivas com esse objetivo.
"Eu estava vindo de São Paulo para cá e entrei numa livraria no aeroporto de Congonhas. Não tinha um livro de literatura na prateleira, apenas títulos de autoajuda e outros gênero", lamentou o escritor e poeta paulista Adhemir Santos, que lança na Bienal "A voz do ventríloquo", vencedor no ano passado do prêmio Jabuti no gênero.
"O meu livro é vencedor de um prêmio importante e não está em nenhuma livraria do país. A alternativa que eu e o meu editor encontramos foi disponibilizá-lo na internet a um preço justo", confessou.

Evocando suas experiências de oficinas de poesias realizadas pelas escolas de Brasília, o poeta Nicolas Behr enfatizou a necessidade de trabalhar o gosto pelos versos nas categorias de base, desde pequeno.
"Outro dia um aluno me disse que poesia tem que ser de amor e rimada, senão não é poesia, a maioria da garotada acha que o gênero é chato", recordou.
Fazendo coro ao amigo e poeta Nicolas Behr, o jornalista e poeta José Carlos Viera concordou que está faltando formação nas escolas, mais ainda no cotidiano das pessoas.
"E está ausente no nosso dia a dia porque não temos mais tempo para ela. Ela consegue sobreviver marginalmente, pelos saraus, por meio de vários coletivos que tentam trazer a poesia para o nosso cotidiano", observou, citando Nicolas Behr como um grande representante desse estilo.
"Admito que sou um pouco exagerado quando o assunto é fazer divulgação do meu trabalho. Mas chame o poeta de analfabeto e não de marqueteiro", ironizou.
Contando com a ajuda de um telão, o poeta mineiro Wilson Pereira, um dos convidados do debate, ilustrou por meio de números o contraste entre a admiração das pessoas pelos poetas e poesias no Brasil e a venda medíocre dos livros de gênero. "Tem mais poeta, que leitor, mais artista do que consumidor", constatou o poeta mineiro radicado em Brasília.
HERANÇA MILITAR
O poeta Thiago de Mello, junto com o escritor Antonio Torres, contou histórias sobre a ditadura no Brasil e na América Latina. Lembrou de um encontro que teve com o poeta Pablo Neruda e o então senador Salvador Allende, no Chile, poucos dias antes do golpe militar.
"Quando eu soube do golpe virei para eles e disse que ia voltar para o Brasil para lutar contra a ditadura e foi o que fiz. Fui preso quando desci na porta do avião'", recordou.
O dia em que foi preso na porta do hotel Glória —episódio que teve repercussão internacional—, ao lado de um grupo de intelectuais, que incluia Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Flávio Rangel, entre outros, lutando contra o regime, também foi lembrado.
Aproveitando esse recordação, Mello admitiu em público um grande fracasso coletivo desse período. "Quero falar agora em nome de todos os meus colegas da luta armada, a chamada luta urbana. Pegar em arma foi um erro tático, político, mas foi um erro, um grande fracasso, mas que belo e nobre fracasso", confessou, sob aplausos.
Ao responder uma pergunta do público porque escolheu a poesia como caminho a ser trilhado foi direto: "Eu resolvi escrever poema porque nasci poeta. Ninguém se faz poeta, é um dom".
O mais novo membro da Academia Brasileira de Letras, o baiano Antônio Torres fez uma lista de obras literárias perseguidas, implacavelmente, pelo regime, destacando o mítico livro "Zero", do escritor paulista Ignácio Loyola de Brandão.
"Em 2000, esse livro foi eleito um dos melhores romances do século 20, pelo arrojo, tema e estrutura, mas na época nenhuma editora teve coragem de publicar o livro, que saiu primeiro na Itália, em 1974. Quando foi publicado um ano depois por aqui, por uma editora pequena, foi proibido", recordou.

No final do encontro, bastante animado, Thiago de Mello participou como espectador de uma roda de capoeira promovida por alunos de uma escola pública de Sobradinho, cidade-satélite de Brasília. 


Texto pesquisado no  FOLHA e enviado por Miro Antunes

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