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Festival de Águas Claras - Rosa Maria Cheixas Dias/ Sethma Lua


Em 1981 ouvi muita gente comentando acerca de um festival
O Festival de Águas Claras teve 4 edições, sendo a primeira em 1975 e as outras em 1981, 1983 e 1984. A primeira edição foi em um mês de janeiro, marcada pela presença de músicos do rock’n roll brasileiro e alguns internacionais. Já as demais edições surpreenderam, por apresentar participações de inúmeros nomes mais influentes na vida alternativa brasileira. Raul Seixas, Moraes Moreira, Egberto Gismonti e até um João Gilberto. Sim, com um banquinho, às 6 horas de uma manhã fria de julho, em 1983. As cidades pacatas do entorno de Iacanga não entendiam o que significava aquela súbita transição de incontáveis jovens munidos de mochilas, muitos com crianças, desembarcando de trens, ônibus, surgindo por todas as vias de acessos, descendo das boleias dos caminhões, surgindo nas estradas caminhando, todos rumando para um ermo local em uma fazenda, com suas roupas coloridas e os cabelos ao vento. 
O caipira, sujeito bonachão, curioso, apesar da também desconfiança, não tardou a investigar o motivo entre um ou outro hippie que abordava. Assim, a notícia que o Sr. Antonio Checchin, proprietário de uma fazenda, na divisa dos municípios de Reginópolis e Iacanga, aprovara o pedido do filho Junior, o Leivinha, em realizar ali na fazenda um grande encontro de atores de teatro e músicos, correu por todos os cantos.
Na verdade, parece que a ideia inicial seria apenas encenar uma peça teatral ao ar livre, com muitos convidados e atrações inéditas, experimentais, entre um grupo de amigos. Mas, um amigo convida outro e mais outro e tudo foi se multiplicando, numa época em que a criatividade fervia e se expandia, a tal ponto que a primeira edição já se caracterizou com
Tendo deixado em todos o contentamento, o desejo de “bis” era comum também e sendo assim, o jovem Leivinha e os amigos arregaçaram as mangas e imediatamente iniciaram os preparativos para a segunda edição. Se a época estava excelente para a criação, as dificuldades de alvará surgiram, precisa-vam passar pelo crivo dos coroneis da ditadura. Só seis anos depois, em 1981, aconteceu outra edição.de Água Claras. E valeu a pena esperar, pois 81 trouxe mais vitalidade ao palco e ao público. Um palco excêntrico, mesclado, com Egberto Gismonti abrindo para Luiz Gonzaga depois Hermeto Paschoal. Ama-nhecia, anoitecia e o som seguia. Barracas espalhadas, jovens sorridentes, crianças brincando, amigos novos e antigos, músicos pendurados em árvores tocando flautas, descansando nas redes penduradas por todo lado, pessoas nuas banhando-se em um lago e em uma bica d’água, no meio do caminho uma fogueirinha para um cafezinho. Uma grande reunião enfim, de pessoas alternativas, muitos hippies que naqueles três dias trocaram experiências, compartilharam a pleni-tude da vida sem compromisso nem pressa e deixando a sociedade convencional brasileira atônita.
Eu e meus amigos decidimos então, que faríamos um gesto de presença simbólica ao festival naquele 81. Fizemos um acampamento em um espaço verde entre uma avenida e outra, na zona norte da capital paulista e permanecemos lá por três dias cantando, tocando, batendo papo e acampados. Foi muito bom! Em 75 eu ainda era menor de idade e não fui, mas em 1983 eu não dei bobeira, não. Depois de dez dias de trem, ônibus e caronas, cheguei quinze dias antes do início da terceira edição e curti os dias mais agradáveis da minha vida, ali na fazenda, na serenidade da fase alternativa, dos meus 18 anos, da música, da cultura, do amor e da fraternidade, daquele evento que entrou para a história cultural da época e daquelas pessoas. A juventude do sexo, drogas e rock ‘n roll ali registrando a existência. Um feito para o Brasil jovem e que, ainda, era o último a atualizar conceitos sociais.

de música que aconteceria em uma fazenda no interior do estado de São Paulo, no município de Iacanga, cheguei a ver um anúncio em uma emissora de TV. Mas, paulistana que sou, na época jovem, julguei o nome do município improvável e assim sendo não dei muita confiança. Quase às vésperas, eu e alguns amigos constatamos que real-mente aconteceria, seriam três dias de música à céu aberto no aconchego de uma fazenda. Mas, ninguém havia se preparado. Estava sentenciado: perderíamos a oportunidade, não chegaríamos a tempo.
o um grande evento cultural e que reuniu milhares de pessoas alternativas vindas de todo o país e arredores. Uns 20 anos depois, o Leivinha refletiu que “Águas Claras foi uma grande quermesse”

Festival de Águas Claras
Rosa Maria Cheixas Dias/ Sethma Lua
do livro Baseado na Estrada - 50 anos do movimento hippie.
ed. costelas felinas - livros e revistas artesanais 
artesanallivros.blogspot.com

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