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"História de Literatura (resumo)". Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro.

A palavra literatura deriva do termo latim litterae, que faz referência ao conjunto de conhecimentos e competências para escrever e ler bem. O conceito está relacionado com a arte da gramática *01, da retórica e da poética.

* 01:A gramática, é um conjunto das regras fonéticas * 04, morfológicas e sintáticas *, escritas e orais de uma de uma Língua.

Enquanto ciência, faz parte da linguística *02: É a Ciência que tem como objeto o estudo da linguagem e das línguas. A linguística aparece com o Curso de Linguística Geral de Saussure, em 1916. Nasceu a gramática comparada, depois afastou-se separando de filologia *03, integrando o estudo da língua falada e transformando-se numa “ciência geral das línguas”. Saussure apontou o caminho dos estudos linguísticos estabelecendo a distinção entre os conceitos de “linguagem” e de “língua”. Considera o estudo da última como o de um sistema, de uma estrutura. Cada um dos elementos do sistema é apenas definível a partir de relações de equivalência ou de oposição que mantém com os outros elementos. Trata-se do fundamento do estruturalismo. Os domínios da linguística, são constituídos pelas: Fonética, Lexicologia *05, Morfologia *06, Semântica *07, Sintaxe *08.
 * 03: A filologia aborda, portanto, problemas de datação, localização e edição de textos. Para tanto, ela se apoia na História e em seus ramos (como a história das religiões etc.), na linguística, na gramática, na estilística, mas também em disciplinas ligadas à arqueologia, como a epigrafia ou a papirologia. Num registro documental o filólogo pode traçar o desenvolvimento em geral.
Nas tradições acadêmicas de várias nações, uma ampla aceção do termo filologia descreve o estudo de uma língua juntamente com a sua literatura e os contextos históricos e culturais que são indispensáveis para uma compreensão das obras literárias e de outros textos culturalmente significativos. Filologia compreende, portanto, o estudo da gramática, retórica, história, a interpretação dos autores, críticos e tradições associadas a um determinado idioma. Tal definição tão abrangente está se tornando rara, e filologia tende a referir-se a um estudo de textos a partir da perspectiva histórica da linguística.
No seu sentido mais restrito de linguística histórica, a filologia foi uma das primeiras ciências do século XIX a se aproximar da linguagem humana mas deu rumo à ciência moderna da linguística no século XX, devido à influência de Ferdinand de Saussure, que argumentava que a linguagem falada deveria ter primazia. Nos Estados Unidos, o Jornal Americano de Filologia foi fundando em 1880 por Basil Lanneau Gildersleeve, um professor de Filologia Clássica na Johns Hopkins University.
* 04: A Fonética é o ramo da Linguística que estuda a natureza física da produção e da perceção dos sons da fala humana. Preocupa-se com a parte significante do signo linguístico e não com o seu conteúdo. Segundo Gregory, subdivide-se em:
Fonética articulatória: estuda como os sons são produzidos, isto é, a posição e a função de cada um dos órgãos do aparelho fonador (língua, lábios, etc.);
Fonética acústica: analisa as características físicas dos sons da fala, ou seja, as ondas mecânicas produzidas e a sua perceção auditiva.
Outros autores consideram também uma terceira subdivisão:
Fonética auditiva: estuda os processos que realiza o recetor na receção e interpretação da onda sonora.
A unidade básica de estudo para a Fonética é o fone. A fala humana é capaz de produzir inúmeros fones. A forma mais comum de representar os fones pelos linguistas é através do Alfabeto Fonético Internacional (AFI), desenhado pela Associação Internacional de Fonética (I.P.A.).
* 05: A Lexicologia é um ramo da linguística que tem por objetivo o estudo científico de uma grande quantidade de palavras de um determinado idioma - léxico - sob diversos aspetos. Para isso, ela procura determinar a origem, a forma e o significado das palavras que constituem o acervo de palavras de um idioma bem como o seu uso na comunidade dos falantes. Assim, por meio da lexicologia torna-se possível observar e descrever cientificamente as unidades léxicas de uma comunidade linguística.
* 06: A Morfologia é o estudo da estrutura, da formação e da classificação das palavras. A peculiaridade da morfologia é estudar as palavras olhando para elas isoladamente e não dentro da sua participação na frase ou período. A morfologia está agrupada em dez classes, denominadas classes de palavras ou classes gramaticais. São elas: Substantivo, Artigo, Adjetivo, Numeral, Pronome, Verbo, Advérbio, Preposição, Conjunção e Interjeição.
* 07: * 07: Semântica  é o estudo do significado. Incide sobre a relação entre significantes, tais como palavras, frases, sinais e símbolos, e o que eles representam, a sua denotação.
A semântica linguística estuda o significado usado por seres humanos para se expressar através da linguagem. Outras formas de semântica incluem a semântica nas linguagens de programação, lógica formal, e semiótica. A semântica contrapõe-se com frequência à sintaxe, caso em que a primeira se ocupa do que algo significa, enquanto a segunda se debruça sobre as estruturas ou padrões formais do modo como esse algo é expresso (por exemplo, as relações entre predicados e seus argumentos). Dependendo da conceção de significado que se tenha, têm-se diferentes semânticas. A semântica formal, a semântica da enunciação ou argumentativa e a semântica cognitiva, descrevem o mesmo fenômeno, mas com conceitos e enfoques diferentes.
Na língua portuguesa, o significado das palavras leva em consideração:
Sinonímia: É a relação que se estabelece entre duas palavras ou mais que apresentam significados iguais ou semelhantes, ou seja, os sinônimos. Exemplos: Cômico - engraçado / Débil - fraco, frágil / Distante - afastado, remoto.
Antonímia: É a relação que se estabelece entre duas palavras ou mais que apresentam significados diferentes, contrários, isto é, os antônimos: Exemplos. Economizar - gastar / Bem - mal / Bom - ruim.
Homonímia: É a relação entre duas ou mais palavras que, apesar de possuírem significados diferentes, possuem a mesma estrutura fonológica, ou seja, os homónimos.
* 08: Sintaxe é o estudo das regras que regem a construção de frases nas línguas naturais. A sintaxe é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e das frases no discurso, incluindo a sua relação lógica, entre as múltiplas combinações possíveis para transmitir um significado completo e compreensível. À inobservância das regras de sintaxe chama-se solecismo.
Na linguística, a sintaxe é o ramo que estuda os processos generativos ou combinatórios das frases das línguas naturais, tendo em vista especificar a sua estrutura interna e funcionamento. O termo "sintaxe" também é usado para referir o estudo das regras que regem o comportamento de sistemas matemáticos, como a lógica, e as linguagens de programação de computadores.
A sintaxe é importante pois a unidade falada é a oração, não a palavra ou o som. Em termos práticos, o falante fala e o ouvinte ouve orações. Salvo o caso quando uma única palavra é portadora de sentido completo.
Os primeiros passos da tradição europeia no estudo da sintaxe foram dados pelos antigos gregos, começando com Aristóteles *09, que foi o primeiro a dividir a frase em sujeitos e predicados. Um segundo contributo fundamental deve-se a Frege que critica a análise aristotélica, propondo uma divisão da frase em função e argumento. Deste trabalho fundador, deriva toda a lógica formal contemporânea, bem como a sintaxe formal. No século XIX a filologia dedicou-se sobretudo à investigação nas áreas da fonologia e morfologia, não tendo reconhecido o contributo fundamental de Frege *10, que só em meados do século XX foi verdadeiramente apreciado.
* 09: A Lógica de Aristóteles, que ocupa seis de suas primeiras obras, constitui o exemplo mais sistemático de filosofia em dois mil anos de história. Sua premissa principal envolve uma teoria de caráter semântico desenvolvida por ele para servir de estrutura para a compreensão da veracidade de proposições. Foi por meio de sua lógica que se estabeleceu a primazia da lógica dedutiva. Aristóteles sistematizou a lógica, definindo as formas de interferência que eram válidas e as que não eram - em outras palavras, aquilo que realmente decorre de algo e aquilo que só aparentemente decorre; e deu nomes a todas essas diferentes formas de interferências. Por dois mil anos, estudar lógica, significou estudar a lógica de Aristóteles.
A lógica, como disciplina intelectual, foi criada no século IV Antes de Cristo por Aristóteles. Sua teoria do silogismo constitui o cerne de sua lógica e através dela tenta caracterizar as formas de silogismo e determinar quais deles são válidas e quais não, o que conseguiu com bastante sucesso. Como primeiro passo no desenvolvimento da lógica, a teoria do silogismo foi extremamente importante.
*10: Frege, apesar de sua educação e trabalho inicial terem sido matemáticos, especialmente geométricos, o pensamento de Frege logo se transformou em lógica. Sua Begriffsschrift, eine der arithmetischen nachgebildete Formelsprache des reinen Denkens (Halle A / S: Verlag von Nebert Louis, 1879) (Notação Conceitual: Uma Linguagem Formal, decalcada da aritmética, do Pensamento Puro) marcou uma virada na história da lógica. O Begriffsschrift inovou, incluindo um tratamento rigoroso das ideias de funções e variáveis​​. Frege queria mostrar que a matemática se desenvolve a partir da lógica, mas ao fazê-lo, ele desenvolveu técnicas que o levaram muito além da lógica silogística aristotélica e estoica proposicionais que tinham descido com ele na tradição da lógica.
Com efeito, Frege inventou a lógica de predicados axiomática, em grande parte graças à sua invenção de variáveis ​​quantificadas, que eventualmente tornou-se onipresente na matemática e na lógica, e que resolveu o problema da generalidade múltipla. A lógica anterior tinha lidado com as constantes lógicas e, ou, se... então ... não, e alguns e todos, mas iterações destas operações, especialmente "alguns" e "todos", foram pouco compreendidas: mesmo a distinção entre um par de frases como "todo menino ama alguma garota" e "alguma menina é amada por todos os meninos" era capaz de ser representado só muito artificialmente, enquanto que o formalismo de Frege não tinha dificuldade em expressar as diferentes leituras de" cada menino ama uma garota que ama algum garoto que ama uma garota" e frases semelhantes, em paralelo completo com seu tratamento de, digamos, "todo menino é tolo".
Um dos propósitos declarados de Frege era isolar os princípios genuinamente lógicos de inferência, de modo que na representação adequada da prova matemática, seria sem nenhum apelo a "intuição". Se havia um elemento intuitivo, que era para ser isolado e representado em separado como um axioma: a partir daí, a prova era para ser puramente lógica e sem lacunas. Tendo exposto essa possibilidade, o propósito maior de Frege era defender a visão de que a aritmética é um ramo da lógica, uma visão conhecida como logicismo: ao contrário de geometria, aritmética era para ser mostrada como não ter qualquer base na "intuição", e sem necessidade de axiomas não lógicos.
Desde Aristóteles, a “retórica”, reflexão geral sobre estratégias de comunicação, especializou-se em “poética”, ou codificação dos diferentes géneros da escrita, restringindo-se apenas à “elocutio, ornamento, arte de dizer, em detrimento da “Inventio”, ou seja a intervenção, procura dos argumentos, e da “disposittio”, que é a disposição, ordenação. Estabeleceu-se uma hierarquia, do estilo nobre/sublime ao estilo baixo/trivial, passando pelo medíocre, correspondendo às três classes da sociedade: nobres, burgueses e camponeses. Para simplificar, podem caraterizar-se as obras literárias a partir dos pronomes pessoais e dos tempos verbais nelas dominantes. Ao “eu” presente, corresponde o género lírico; ao “tu”, o teatro cómico ou trágico, segundo a natureza dos personagens; ao “ele” passado, a epopeia, o texto narrativo. Os teóricos aplicam-se em definir as regras precisas que convêm a cada género e a designar Cada uma das suas categorias internas – é este, essencialmente, o objeto das “artes poéticas”. De modo que se estabelece um pacto, um contrato de leitura, entre o autor, inscrevendo o seu texto num dado conjunto, e o leitor, que sabe precisamente o tipo de emoções que deve esperar, ou a que princípios se apelam sob uma dada etiqueta. Mas qualquer codificação rigorosa acaba por desagradar ao verdadeiro criador, que procura libertar-se dela ou situar-se lugar: Do mesmo modo, o leitor cansa-se das formas convencionais.
O campo literário, pode tornar-se um espaço cada vez mais fluído. Aí se incluem as produções das comunidades linguísticas minoritárias numa nação e as línguas que não correspondem a um dado país, ou as literaturas ditas “marginais”, como romance cor-de-rosa, ficção científica, romance policial, banda desenhada, literatura infanto-juvenil, etc.
- Uma pergunta: A Literatura deverá afirmar-se numa conceção pura e dura da sua identidade, ou deverá abrir-se às massas, com o risco de se perder?
Daí a preocupação recente de uma ciência da Literatura, que não assentaria já sobre uma hierarquia dos valores, deduzida dos princípios retóricos das obras ou, pelo contrário, sobre um puro impressionismo resultando da soma das apreciações objetivas dos críticos.

Poesia e Prosa
 
Para Platão, a inspiração poética está ligada ao entusiasmo e à posse do sentido do divino. Também no universo bíblico, o poema é o profeta, a voz de Deus. E para os filósofos da Índia, a poesia, nas suas formas superiores, faz parte de contemplação do sábio. Esta tese domina boa parte das poéticas de inspiração, entre elas e do Romantismo. Pelo contrário, a poesia, qualquer que seja o seu objeto, heroica ou satírica, e sua forma, dramática, lírica ou épica pertence às artes de imitação. Enraizada na natureza, a poesia é o lugar de uma verdade filosófica e universal do que simples exatidão histórica. Esta teoria inspirou numerosos autores de Arte Poética, para culminar nas estéticas clássicas.
As Poéticas Clássicas e a Perspectiva Romântica: No seu percurso tem início há mais de dois mil anos, quando foram estabelecidos os fundamentos das Poéticas Clássicas e como eles influenciaram a arte e a literatura no Ocidente. Em seu sentido clássico, o termo poética denomina o ramo da Filosofia que trata da poesia.
Embora se encontrem reflexões sobre a poesia na República, um dos diálogos escritos por Platão no qual Sócrates é o personagem principal, costuma-se tomar a Arte Poética de Aristóteles como primeiro estudo dedicado a essa disciplina. A Epístola aos Pisões ou Arte Poética, de Horácio, escrita em I Antes de Cristo. insere-se na linhagem das reflexões acerca da poesia, atribuindo-lhe a função de “Educar com prazer”. Datam do século III Depois de Cristo, estudos poético de contidos em Sobre o sublime, cuja autoria é atribuída a Longino e em fragmentos da obra de Plotino. Na idade média, a poética e a Retórica, disciplina voltada para o estudo da Oratória, mesclam-se e as tênues fronteiras entre esses dois ramos do conhecimento humanista ficam imperceptíveis, além disso, inicia-se um estudo de técnica poética que se desvincula totalmente do pensamento clássico acerca da poesia. Entre os séculos XV e XVIII, período que se alonga do Renascimento ao Neoclassicismo, a Poética experimenta um novo apogeu, retoma a autonomia diante da Retórica e assume o centro dos estudos literários. No entanto, já no século XVIII, esse espaço vai ser compartilhado com a Estética, disciplina surgida em 1750, com a obra de Alexander Baungartem a ela dedicada. Ao longo desse século, a estética acabou por substituir a Poética como disciplina chave no estudo da Literatura.
Sócrates e a poesia: O diálogo intitulado A República, escrito por Platão, é um texto de difícil classificação que pode ser lido por diferentes ângulos: filosófico, político, epistemológico, literário, entre outros. Dadas a complexidade e a genialidade desse texto, ele tem servido de estímulo à reflexão ao longo dos séculos e pode ser considerado uma das bases do pensamento ocidental.
Os estudiosos da obra de Platão consideram que A República é uma de suas mais influentes obras.  Nesse diálogo, Sócrates discute com outros convivas o sentido do termo justiça e, para desenvolver a argumentação, decide criar um mundo ideal, já que, segundo ele, não se poderia falar desse tema tendo como referência o mundo em que vivia. O título do diálogo advém dessa comunidade ideal projetada por ele. Sócrates, mestre de Platão, é o personagem principal. É importante notar que pouco sabemos sobre o quanto dos ensinamentos socráticos se faz presente nos diálogos de Platão, pois é óbvio que as ideias do discípulo misturam-se às do mestre na criação que tem lugar nesse texto. Por esse motivo existe uma tendência a ler esse texto como um discurso ficcional de feição filosófica.
Nos livros II e III, Sócrates conversa com o personagem Adimanto sobre as histórias apropriadas à formação dos cidadãos na República e dedica-se a pensar “A Educação pela Ginástica e a música”, conforme ele mesmo esclarece, a literatura está incluída na “música”. É preciso lembrar que a produção daquele tempo se fazia em versos e era geralmente acompanhada por instrumentos e cantos. Mais tarde, Aristóteles revelará que os escritos em prosa, embora existissem, não tinham ainda uma classificação. No livro III, ele também desenvolve uma preleção sobre as formas de narração nos diferentes gêneros poéticos, a imitação, o estilo simples, o estilo múltiplo e a harmonia, sempre com o mesmo viés, bastante impositivo e moralizante. Nas conceções apresentadas nesses dois livros, podemos perceber um tom bastante autoritário, que se revela no emprego do modo imperativo e nos vocábulos usados, como veremos a seguir. Ainda sob a mesma perspectiva moralizante e controladora, Sócrates continua seu diálogo com Adimanto e, além de falar da necessidade de impor essa temática aos poetas, também condena como ímpios aqueles que não escrevem de acordo com seus ditames, como podemos observar no fragmento a seguir: Pelo contrário, se há meio de persuadi-los de que jamais houve cidadão algum que se tivesse inimizado com outro e de que é um crime fazer tal coisa, esse e não outro, é o gênero de histórias que anciãos e anciãs deverão contar-lhes desde o berço; e, quando crescerem, será preciso ordenar aos poetas que componham suas fábulas dentro do mesmo espírito. “Mas se queremos que uma cidade se desenvolva em boa ordem, é preciso impedir por todos os meios que nela se atribua à divindade, que é boa, a autoria dos males sofridos por mortal, e que narrações de tal espécie sejam escutadas por moços e por velhos, estejam elas escritas em versos ou em prosa. Pois quem conta tais lendas profere coisas ímpias, inconvenientes e contraditórias entre si. Não devemos concluir, pois, que todos os poetas, a começar por Homero, são imitadores de imagens da virtude e das demais coisas sobre que compõem seus poemas; quanto à verdade, porém jamais a alcançam? [...] Volve tua atenção para isto: o imitador ou fabricante de imagens nada entende do verdadeiro ser, apenas do aparente, não é assim? Esse conjunto de ideias desenvolvido ao longo do texto vai culminar no Livro X, o mais acusador e acirrado em relação à Poesia mimética, à expulsão do poeta da República. A condenação socrática focaliza os poetas tradicionais, que “falseiam o real” pela imitação destorcida e mentirosa, em oposição aos poetas filósofos, que imita de forma ordenada e racional, buscando a maior aproximação possível com o real. Aristóteles, no entanto, reabilitará o poeta mimético, ao considerar a imitação o constituinte fundamental da arte literária, que é concebida por ele como criação e em sua perspectiva deixará o jugo do real imposto por Sócrates. “Aristóteles plantou os pés na terra e olhou para as coisas”: A poética de Aristóteles, embora tenha sido escrita mais de cinco séculos antes de Cristo, só foi conhecida efetivamente a partir de 1498, quando veio à público sua primeira edição latina. Daí em diante, sua influência sobre a criação e a crítica literária foi bastante abrangente, tendo sido alvo de diferentes interpretações. Em alguns momentos, foi tomada como um manual prescritivo, cujas regras deveriam ser seguidas, mas hoje predomina a tendência a “encarar isoladamente certos conceitos aristotélicos como  fonte estimulante para novas observações e novas reflexões sobre o fenómeno artístico”. Desde o início da Poética, nota-se o tom didático que predomina no texto, visível no movimento de organizar as ideias, apresentar conceitos e classificar os textos. O parágrafo inicial é um perfeito exemplo de introdução, pois apresenta toda a organização das ideias apresentadas a seguir: “Surgidas a tragédia e a comédia, os autores, segundo a inclinação natural, pendiam para esta ou aquela; uns tornaram-se em lugar de jâmbicos, comediógrafos; outros, em lugar de épicos, trágicos, por serem estes gêneros superiores àqueles e mais estimados. ”Observando a articulação do discurso encontramos um intenso uso de imperativos que sustenta as leituras do texto enquanto conjunto de prescrições. Nota-se isso, por exemplo, no seguinte trecho:  “Deve-se sempre procurar a verossimilhança e a necessidade. O irracional não deve entrar no desenvolvimento dramático, mas se entrar, que seja unicamente fora da ação. ”Aristóteles parte da definição de poesia como imitação, para analisar as espécies de poesia imitativa – ou seja, a Epopeia, a Tragédia e a Comédia, classificando-as segundo os meios, os objetos e os modos  da imitação.
Horácio enviou a Carta aos pisões (Epistula ad Pisones), também conhecida como Arte Poética (Ars Poetica), ao cônsul romano Lúcio Pisão e seus filhos, também literatos. Em sua missiva, o poeta latino formula princípios para a construção poética e dá sugestões de ordem prática para escritores. Nesse texto, o poeta apresenta suas reflexões sobre a composição artística, tema que já havia abordado em seis poemas compostos anteriormente. É na Arte Poética, no entanto, que se apresentam depuradas e amadurecidas suas conceções. Para Brandão, um importante eixo do pensamento horaciano é a ideia de que “A obra é regida por leis que podem ser formuladas”. O texto é, por isso mesmo, bastante pragmático e foi traduzido com certo radicalismo em tratados de poética difundidos nas diferentes “ondas” clássicas que marcam a história da arte ocidental a partir do fim da Horácio toma como referência a pintura para pensar a poesia, o que fica bem claro numa expressão do texto que se tornou célebre: “Ut pictura, poiesis”.
Podemos assim sintetizar os princípios que ele formula para que seja atingida a perfeição artística: É inegável que a Arte Poética de Horácio constituiu um cânone, um modelo para a criação poética ocidental, tendo sido objeto de estudo para inúmeros escritores. O prestígio desse texto foi incomparável, pois, embora nem sempre seus preceitos fossem inteiramente integralmente seguidos, influenciou diversos estilos literários, principalmente até o advento do romantismo. Podemos citar como prova dessa influência de Horácio na criação literária o fato de que algumas expressões cunhadas por ele, como carpe diem (aproveite o dia) e aurea mediocritas (mediocridade dourada) terem se tornado, mais que valores, temas artísticos para variadas gerações. Como já dissemos, a influência das poéticas clássicas sobre a produção artística ocidental, a partir de sua redescoberta no período renascentista, foi imensa. Imitação de autores greco-latinos: imitar os que imitam com perfeição a natureza da Herança renascentista. Perigo: rigidez e artificialismo; Conveniências: Interna: coerência e harmonia interna da obra; Externa: adequação à moral vigente, ao gosto, sensibilidade e costumes do público; O movimento romântico surgido no século XVIII na Europa é essencialmente contraditório. De um lado, segundo Arnold Hauser, como continuidade do processo de emancipação da burguesia, é expressão de um “entusiasmo plebeu”, contrapondo-se ao “intelectualismo delicado e discreto” das classes superiores. De outro, representa uma reação dessas classes superiores ao racionalismo neoclássico que o precedeu. Para compreender a estética do período que abordaremos agora, é importante entendermos que há uma discromia (diferença temporal) entre a história literária europeia e a brasileira. Isso fica claro quando observamos as datas das principais publicações românticas lá e aqui:
Romantismo na Europa no século XVIII 1742 1789 1820 Romantismo: Alemanha, França Inglaterra, Portugal e Brasil. As formas da cantiga medieval: de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer.
A sensibilidade romântica renovou o conceito de beleza, tornada dinâmica e contraditória. Eles modificaram a relação clássica entre Beleza e Verdade. Para os pensadores gregos, a Verdade produz a Beleza, enquanto para os românticos a Beleza produz a Verdade. Com essa ideia em mente dedicaram-se à criação de uma nova mitologia cuja função seria a “completa liberação do espírito humano”.
Friedrich Schlegel, nos seus Diálogos sobre a poesia II, apresenta o ideário idealista romântico proposto nessa nova mitologia: “A única coisa que lhe peço é não duvidar da possibilidade de uma nova mitologia [...] Se é verdade que uma nova mitologia pode erguer-se, somente com suas formas, das remotas profundezas da alma, o idealismo – o maior fenômeno de nossa época – oferece a nós uma direção altamente significativa e uma prova extraordinária daquilo que estamos buscando. Foi assim precisamente que o idealismo nasceu, como se fosse do nada, é agora, mesmo no mundo do espírito, ele constitui uma referência, uma vez que a energia humana espalhou-se em todas as direções e progressivamente desenvolveu-se, certamente ela não perderá a si mesma nem ao caminho de volta.”
Da Idade Média à época Clássica, a poesia aparece frequentemente submetida a uma arte de dizer que tem por objeto a procura do belo medido segundo o rigor da submissão às regras, ou seja, regra poética mas também regra social. O poeta é alternativamente o protegido do senhor, do príncipe ou do rei. O século XVIII, não pensando que as “luzes” possam vir da poesia, menospreza-a. As convulsões políticas e sociais dos finais dos séculos XVIII e XIX suscitam um questionamento radical do homem, que experimenta subitamente uma dúvida para com o mundo e consigo próprio: o princípio da unidade – do mundo, do homem – rompe-se, e a poesia dá conta disso. Os românticos lançam o primeiro grito de alarme para denunciar as contingências de uma arte que já não pode satisfazer a expressão da multicidade das aparências descobertas. Mas permanecem ainda submetidos à lei do verso, ao regime do género.
A poesia distingue-se do discurso lógico e prático, destinado a nomear os objetos reais, a exprimir as suas relações evidentes, a definir os fins e os meios de ação. Distingue-se da prosa como uma linguagem eurítmica e eufórica, próxima do canto. Mas, sendo também um discurso na medida em que é linguagem, o canto poético tem sempre um peso para a prosa, do mesmo modo que esta é sempre capaz de se elevar para a poesia. O exame das etimologias permite traçar com mais segurança uma tal linha de demarcação: à prosa (oratio pro(s)sa, discurso que vai “direito” ao seu referente) opõe-se a mensagem essencialmente organizada pelo regresso (vertere versus), o pôr em correspondência ou em ressonância de unidades de linguagem mo texto poético. Assim, critérios estruturais presidiram à distinção em tipo poético e tipos narrativos, descritos ou argumentativos. A versificação já não surge assim a não ser como uma manifestação particular e institucionalizada do princípio mais geral de repetição.
“Reatando com o sentido primeiro da sua etimologia, a poesia apresenta-se desde então como um fazer, uma criação do homem que inventa o mundo, quer esse mundo seja para construir ou descobrir na sua realidade, para redescobrir em cada instante eternamente em mutação. Ao mesmo título que as ciências, a poesia pretende-se um meio de prospeção para elucidar “os meios dos quais a nossa existência abafa” (Lautréamont).
Fontes: Livros académicos, livros especificados, artigos em revistas e jornais.
enviado por:
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal
 
Livro de Visitas do Portal CEN - "Cá Estamos Nós"
 

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