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DOM TOMÁS - por Emanuel Medeiros Vieira

  Aprendi a ler e a respeitar o trabalho e a profunda reflexão do padre jesuíta Pierre Teilhard  de Chardin (1881-1962), que inspirou a muitos –- a mim também – a entrarem na AP– Ação Popular, organização originada na esquerda católica que, depois (já estávamos fora), unida ao PCdoB, tornou-se marxista.
Chardin acabou a vida “exilado”  por seus companheiros de Ordem.
Mas as suas profundas reflexões e seu humanismo ficaram, e são um belíssimo testamento para todos nós.
Algo nele, me fez lembrar de  Dom Tomás Balduíno (1922-2014).
Passei uma tarde, em Goiás Velho (que já fora capital de Goiás), nos anos oitenta,  conversando e aprendendo com o digno e sempre combativo Dom Tomás Balduíno, odiado por latifundiários, grileiros e, às vezes, também pelo chamado agronegócio (em certas ocasiões, alguns latifundiários, abandonavam o valioso trabalho rural e caíam no chamado agro-banditismo, matando posseiros e indígenas).
 O arcebispo de Goiás Velho tinha no seu “currículo”  muitas ameaças de morte (de fazendeiros e seus prepostos, de latifundiários, “coiteiros” etc.
E o Vaticano, da época, também não o amava, e desmantelou toda a Teologia da Libertação na América Latina (dando espaço à Teologia da Prosperidade,  aos supermercados da fé – dos bispos evangélicos neopentecostais).
Tomando suco de limão com biscoitinhos, que ele me oferecera, perguntei se ele tinha medo (nas madrugadas, era muitas vezes chamado para socorrer os humildes, os pobres e humilhados deste mundo, a conceder a Unção dos Enfermos aos agonizantes, ajudando a todos – dirigindo a sua Rural velha em estradas desertas).

Ele me olhou profundamente (sinto um arrepio que me emociona fortemente quando me lembro daquela tarde, no interior de Goiás,  nesta noite de junho, na primeira capital do meu país, em um novo século).
Ele levantou-se, abriu a camisa e mostrou-me um Crucifixo – e tocou Nele.
E disse: “Ele Está comigo”.
Quando saí de lá, achei que poderia fazer mais pela nossa pobre humanidade. Segurei umas lágrimas e voltei à Brasília. 
Eu estava acompanhado de um amigo que não vejo há anos, que era do Partido Comunista Brasileiro (catarinense como eu).
Prefiro não expô-lo, quando a serpente no avo, anuncia o germinar de um novo tipo de fascismo no Brasil.
Só para deixar um registro: uma dos das pessoas que mais o odiavam (e o seu trabalho) era uma fazendeira, atual senadora – essa senhora era, conhecida como “Rainha da Motosserra” –virou muito amiga da dona Dilma – quase “amiga de infância”.
A ex-presidente foi até madrinha do casamento “crepuscular” da senadora. Não qualifico de “tardio” o consórcio afetivo  da “Rainha da Motosserra” porque pareceria preconceito às pessoas maduras que se casam.
E o que eu queria dizer era um lugar-comum: como os extremos se encontram ou como os enganadores não conseguem fugir eternamente da verdade – mesmo que seja na idade madura.
Creio que, ainda em vida, Dom Tomás soube disso.
Queria  descobrir o que ele pensava dessa gente que se dizia de “esquerda” e virou lobista de empreiteiras, unindo-se a “luminares” do “pensamento socialista” como Jáder Barbalho, Romero Jucá (“estadista” que atravessa todos os governos, de todos os espectros ideológicos), Fernando Collor, Renan Calheiros, José Sarney, Edson Lobão e outros.
fomos nós que mudamos.
Se eles mudaram, não podem nos obrigar-nos a fazer o mesmo.
Saudades, Dom Tomás. Seu trabalho ficou.
Mas nuvens negras estão no horizonte.

Por favor, Dom Tomás,  abrace Dom Paulo Evaristo Harns (1921-2016), Dom Helder Câmara (1909-1999),  o corajoso Padre Cardoso (meu professor no Colégio Catarinense  que fazia sermões combativos e com duríssimos ataques aos privilegiados (à burguesia..., como dizíamos antes, da Ilha natal., que depois deixou a batina – não sei o seu nome todo, a data de nascimento e de morte).
E outros –  anônimos – que deveriam também ser lembrados e esqueci.
O texto acima é dedicado a todos os homens e mulheres que foram mortos pela ditadura militar!
(Salvador, junho de 2017)

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