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Crônica de Nelson Hoffmann

enviada por Roberto de Queiroz


Sensibilidade



Nelson Hoffmann
Escritor e crítico literário
Quando publiquei o texto Pai e Filhos, em minha coluna do Jornal Igaçaba, mal se fizera a distribuição do jornal e já me chegava carta do Roberto de Queiroz, comentando o texto. Entre coisas mais, abordava a “sensibilidade” por mim mencionada. Sobre isso, trechos da carta:
“Algo no texto Pai e Filhos me chamou a atenção. É essa tal sensibilidade, essa tal espiritualidade, esse tal gosto pela vida interior.
“O amigo diz que sua filha Inês é sensível, inteligente e tem gosto pela vida interior. Daí, há uma indagação: em um mundo materialista, as pessoas que primam pela vida interior não se tornam (de certo modo) um tanto frágeis?
“Leo Buscaglia, em seu livro AMOR, diz que as pessoas sensíveis, caso deixem que os outros percebam isso, se tornam vulneráveis, de modo que as outras pessoas podem tirar proveito disso.
“Eu, sensível que sou, já melindrei certas vezes, e não aprendi com os “erros”. Hoje, apesar de um pouco arisco, continuo a primar pela vida interior. Isso está no DNA ou será que é fruto da própria gênese?”
Fiquei com a carta na mão, a pensar. E agora?
Por essa eu não esperava. Dizer que alguém é sensível, inteligente e tem gosto pela vida interior é uma coisa, é a constatação de uma realidade. Mas saber se isso está no DNA, ou é da gênese, exigia um conhecimento que eu não alcançava.
Saí-me pela tangente, procurei a Inês. Ela me ganha no assunto, brincando. Exibi a carta, pedi que lesse e respondesse.
Deixei a carta na sala, em cima da mesa. Dias depois, a Inês mostrou-me a resposta. Foi esta:
Pessoas sensíveis sofrem, e muito, nesse mundo movido pelo material. Por ser muito sensível e as pessoas não me compreenderem, por um período de minha vida criei em mim uma barreira, em forma de ironia, para me defender das coisas que me machucavam. Consegui aguentar por alguns anos, mas cheguei a um colapso nervoso.
Hoje vejo o quanto é bom ter essa sensibilidade, apesar de sofrer, mas aprendi a ter meu coração aberto para entender as pessoas e meus atos, lembrar dos erros que cometi e não me arrepender de tê-los feito, saber que ninguém pode corresponder totalmente ao que esperamos e que eu posso, com a minha sensibilidade, ajudar as pessoas a encontrar uma resposta.
“Por incrível coincidência, o livro que estou lendo é Perdas e Ganhos, de Lya Luft, e eu gostaria de escrever aqui um pequeno trecho: ‘Tudo se complica porque trazemos nosso equipamento psíquico. Nascemos do jeito que somos: algo em nós é imutável, nossa essência são paredes difíceis de escalar, fortes demais para admitir aberturas. Essa batalha será a de toda a nossa existência. […] Algumas pessoas nascem mais frágeis que outras… Não é uma sentença, mas um aviso da madrasta Natureza.’”

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