enviado por Roberto de Queiroz
O autorretrato de Luciano Marinho
Roberto de Queiroz*
Na interpretação que faz de seus próprios romances, em sua página no Facebook, Luciano Marinho define-se como romancista recifense. No ensejo, o termo “recifense” funciona como adjetivo pátrio. Assim, a expressão “romancista recifense” não se refere a temáticas oriundas do Recife e suas mesorregiões geográficas. No caso em tela, o “recifense” é o autor, e não a temática de sua obra. Aquele, seguramente, pode ir além de suas fronteiras, enquanto essa, por sua vez, caminha ao lado de seu criador. Nesse sentido, ambos podem ultrapassar facilmente as fronteiras das temáticas regionalistas (“a pobreza do nordestino, a figura do retirante, as intempéries da natureza, a consequente falta de perspectiva de vida”, etc.).
Por esse prisma, nota-se que Marinho aborda em seus romances temas urbanos (iniquidade, egoísmo, luta pela sobrevivência, etc.), ou seja, o existencialismo e as amarguras do ser “humano na sua trajetória existencial”. Nesse ambiente urbano, conforme sua própria afirmação, as personagens femininas não são organismos barrocos, nem ultrarromânticos, e sim de carne e osso, dotadas de impulsos naturais, desejos cotidianos e vontades próprias. Prevalecem ali, concomitantemente, os sonhos individuais e a coletividade, de modo que as personagens, quase sempre, interagem “sobre a influência das grandes mídias e das mídias sociais”.
Ademais, Marinho afirma dispensar influências de autores como João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. Isso porque, embora o primeiro e o terceiro ultrapassem as fronteiras do regionalismo, todos têm raízes regionalistas. E, com maior ênfase, dispensa influências de Rachel de Queiroz e Rubem Braga (a primeira, porque considera ingênua; o segundo, por abordar temas clichês). E sua lista de exclusão não para por aí: dela, não escapa nem a subjetividade feminina e fantasiosa de Clarice Lispector. Para ele, quem é influenciado por Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Eça de Queirós, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac e por uma corrente filosófica ligada a Jean-Paul Sartre e a Ludwig Wittgenstein não pode resignar-se em crer na conversão mirabolante de Ebenezer Scrooge (personagem de Charles Dickens em “Um conto de Natal”), que, sendo um homem frio, ganancioso e avarento, foi tocado pelo “espírito natalino” e, num passe de mágica, transformou-se num homem sensível e bom.
Enfim, Marinho defende a tese de que o escritor é livre. Não tem obrigação com coisa nenhuma nem com ninguém. Deve seguir os próprios padrões estéticos, temáticos e linguísticos. Não é obrigado a simplificar ou coloquializar a linguagem a fim de que um leitor menos esclarecido a compreenda. Ou seja, o autor defende uma literatura revestida de recursos linguísticos, vocabulário rebuscado e figuras de linguagem. Mas afirma não jogar pedra nos regionalistas nem em ninguém, pois isso pertenceu aos revoltosos autores de 22, em relação aos modelos clássicos trazidos da Europa. E finaliza: “Hoje, os tempos são outros, tempos personalistas, da busca obsessiva pela originalidade.”
* Poeta, prosador, professor de Português e especialista em Letras. Autor de “Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem”, Livro Rápido, 2013, entre outros.
E-mail: robertodequeiroz@yahoo.com.br / Facebook: https://www.facebook.com/robertodequeiroz.2
Comentários