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ROGÉRIO CONTO DE EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

                 ROGÉRIO

 EMANUEL MEDEIROS VIEIRA (enviado pelo autor)

– Vou te trazer uma garrafa de vinho, disse Rogério.
Sorriu,
– É romeno – reiterou.
Era um almoço domingueiro.
– Para ti, qual é o melhor início de filme da história do cinema? – Rogério me perguntou.
– É o plano sequência  de “A Marca da Maldade” (Touch of Evil, 1958) – respondi.
Eu sabia que ele, além de conhecer profundamente a obra de Orson Welles, ele adorava o cineasta.
Eu também.
– Rogério, todos os bons filmes já foram feitos? – indaguei brincando.
– Já.
– Mas é preciso não deixar de fazê-los– reforçou.
– Mas tudo está mais pulverizado: TV, DVD, internet, outras mídias, a falta de tempo, a ansiedade generalizada das pessoas, a fragmentação das vidas, a perda de sentido, as aporrinhações, a ausência de sentido, tudo durando pouco, o mercantilismo generalizado, tudo – eu discursei.
– Pois é – Rogério concordou.
Me  abraçou com carinho, dizendo: “é o nosso ‘discurseiro’ e teórico oficial atacando de novo”...
Eu ri.

– Seria possível escrever um romance como os russos do século XIX?
– É claro que não – Rogério falou rindo.
– Ninguém quer saber de livros grossos. Nem os leriam.  Pulam até os livros finos. O mercado nunca deixa de lançar coisas novas. Não dá tempo para
acompanhar.  E há outro problema: muita gente fica colada na internet o dia todo e não lê mais nada – reforcei.
–  Muitos dos que se dizem escritores,também não leem quase nada.  A internet vai nivelando. Se eu digo que sou contista e o outro também – não havendo crítica –, tudo se iguala. Os piores se achando muito importantes, sem qualquer humildade, achando que o mundo e a literatura começaram com eles.
Não temos mais um Carpeaux para iluminar caminhos. Afora as exceções, só restam as teses universitárias que ninguém lê. Prevalece a “soberba medíocre”.  Até as coisas boas não são percebidas. O que vale realmente é esquecido nessa mixórdia – continuei insistindo. Ou discursando.
– Ninguém se importa com mais nada, Rogério?  – indaguei.
– Poucos dão bola. Só quando há interesses mercantis, verbas estatais e sede de aparecer – ele observou.
Depois, parei. Achei que também seria inútil meditar sobre esses tempos. Ninguém daria bola. A maioria ficaria com a sua auto-ajuda, com o seu pornô-chic, com os seus pós-modernismos,  com o seu psicologismo de  boteco, com as suas análises superficiais ou formalistas, com as suas correntes de orações. Ou continuariam fazendo vida literária em vez de literatura, traficando influências, principalmente nos principais eixos, para aparecerem nos cadernos dois da vida.
 Ficamos em silêncio.
– Estamos amargos? –  Rogério perguntou sorrindo.
– Estamos realistas, amigo.
Havíamos sido colegas no Colégio Catarinense, em Florianópolis, no final da década de 50.
Lembro que fizemos um churrasco quando ele foi lançar em Porto Alegre seu filme “O Bandido da Luz Vermelha”. Era 1969. O cinema que o exibiu era o Marrocos, no Menino Deus, que não existe mais.
Não, não virou igreja evangélica, nem casa de bingos, por incrível que pareça.
Virou edifício? Andamos de roda-gigante, comemos algodão-doce, ele com Helena, eu com uma moça chamada Priscila.
– Teu filme é muito bom – comentou o Andriotti, um humanista que havia sido nosso professor e que quase se ordenara padre. Era um cinéfilo de carteirinha.
Anos depois, Rogério me ligou.
– Estou com câncer.
Era no cérebro. Não soube o que dizer.
– Tu ainda rezas, ele me perguntou?
– Rezo.
– A morte não existe, nós é que morremos, tentei brincar, lembrando Godard.
Ele fez um esforço muito grande para rir.
Pouco depois,  Rogério morreu.
Lembrei de um pensamento dele: “País sem cinema é que nem um país sem energia elétrica.”



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