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OS AMORES E SUAS DORES - Roberto Prado Barbosa Junior

enviado por roberto prado

OS AMORES E SUAS DORES


Dia cheio quando ele chegou. Um daqueles dias em que o cristão se pergunta por que não nasceu um Rockefeller, Gates, ou mesmo um “Seu Manuel” da quitandinha, que tem mais dinheiro que eu.
- Ela é casada com o careca, o garçom que nos atende – Falou-me assim de chofre enquanto eu pensava nas minhas dívidas.
-Quem? Casada com que careca? Então era por isso que ele vive com aquele chapéu?
                   - Luzia – murmurou, entre suspiros dolorosos.
 Longos cabelos negros escorridos, olhos lindos e profundos, pés pequenos, mãos brancas de dedos longos, unhas vermelhas, e sempre muito simpática pensei naquele momento, mas guardei para mim tais pensamentos...
Mas guardei para mim tais pensamentos...
Ainda atordoado pela chegada súbita dele, fiquei a olhar para o nada.
- Vi no facebook do restaurante  a foto dela abraçada com o careca...
- Mas você não achava que eles eram irmãos?

Guardei para mim a decepção! Mas logo a compartilharia com os outros colegas que iam almoçar lá só por causa dela... Afinal quem divide, multiplica!
- Me iludia, me enganava – resmungava o pobre homem - tentava cobrir o sol com a peneira... Ela me hipnotizava.
-... (Sem palavras. Segurava o riso. Tenho medo dele!)
- Pobrezinha li que ela não tem mais a mãe...
- Perdeste a chance de ser feliz duplamente... – Sou um cínico, sei!
- Como? – indagava quase babando.
- Ter a Luzia e não ter uma sogra... (por pura piedade deixei de falar que ainda assim teria um cunhado!)
- Essa é história da minha vida... (houvesse uma plateia a nos assistir, esse seria o momento do suspiro coletivo!)
- E agora? – Senti que a pergunta era como passar sal na ferida. Eu não presto mesmo!
- Volto ao Português... – declarou decidido - Lá como à vontade e pago menos. Acho que o marido a explora. Ele a colocou ali, linda daquele jeito!, só para atrair freguesia.
Feito um vereador em cima de caixote, ele continuava com seu discurso inflamado:
- Tenho certeza. – disse peremptório. Aquele cafetão! – disse seguido em soco na minha mesa.
Não fosse o susto, juro que o aplaudiria!
Tive vontade de colocar mais lenha na fogueira e acrescentar que ela gosta de coentro e quem gosta disso boa gente não é... Mas ele sabe da minha implicância com esse vegetal... Além do mais, se a  minha mesa sem dizer nada levou um murro, imagine eu? Guardei para a mim o comentário...
- Sim, afinal a comida no restaurante dela não era mesmo grande coisa, não é? – ai não sei bem se ele se engava ou tentava me convencer. - E aquele negócio do careca falando toda hora “bom dia senhores, bom dia cavalheiros, bom dia senhoritas.”, aquilo me irritava deveras... Coisa pouco máscula para um restaurante no porto... Só lamento o mau-gosto dela – quase, quase falei no coentro!.  – disse seguido de mais suspiro capaz de fazer estátuas chorarem.
Tive vontade de discordar. Mas diante daquele olhar de cachorro abandonado na chuva não tive ânimo...
- Mas no português tem a... – ele me interrompe. Não lhe agrada que eu o lembre de seus amores frustrados. Senti uma vontade muito grande de descrever a pele de seda dela, o gingado, o tratamento diferenciado, mas o medo falou mais alto, outra vez!
- Sim, tem ela, mas já a superei. Hoje a vejo com outros olhos. Sinto-me um quase irmão dela... – dessa vez sou eu que o interrompo.
- Não se iluda seu velho descarado... Tive ganas de perguntar-lhe se já havia comprado umas borboletas azuis, mas o meu bom-senso achou melhor deixar isso prá lá... Me arrependi de tê-lo xingado. Pude ver mais um futuro-pretérito desfazendo-se à minha frente. Lá se ia o sonho do casamento, da família, do Juninho, do labrador chamado Bonifácio, a criação de curiós... Tudo se desfazia...  Do cenário idílico só sobraram os pombos voando sob um céu que há pouco tempo era azul, era promessas, era um mundo que... Poetizo, deliro, viajo nesses momentos... Sou um sentimental incurável! E há quem diga que não tenho coração...
Ficamos em silêncio por um tempo...
Ele olhou para o teto, achei que fosse reclamar das rachaduras, das paredes descascadas, das sujeiras das janelas, quando ele me sai com essa:
- Hora de irmos ao quinto andar!
- Voltou a fumar passivamente?
- Não sei como consigo viver nesse mundo sem o seu cigarro!
Eu ia tocar no assunto das borboletas azuis, mas resolvi deixar esse assunto pra lá...


Roberto Prado Barbosa Junior 

Comentários

Barbara Daré disse…
Roberto Prado arrasando sempre. Sou fã!
Esses platônicos e efêmeros amores...
Roberto Prado disse…
Esses são os piores, sempre.
Anônimo disse…
Como sempre, adoro suas crônicas. São ótimas. Em tempo, também odeio coentro.rs...Beijos de sua tia predileta.
Viva Dona Raquel!!!!!!

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