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Cláudio Feldman |
Mãe extremada (14/4/08)
Era mãe
extremada, mas infeliz com a dubiedade de sentimentos, desejos físicos,
estremecimentos, espasmos, que os corpos de seus oito filhos-homens lhe
provocavam, fazendo seu animal dar sinal de vida. “Seria isso vida?” Esse desejo
maluco, essa carência de tremularem-se-lhe as carnes lá, no íntimo...? Sua
culpa era tanta, capaz de mortificá-la. O que fazer se...? Cada hora era um a
surpreendê-la sem cueca ou colocando a sunga ou tomando banho de porta
aberta... “ fecha essa porta, seu exu!” ou
dormindo nu ou se masturbando esquecido do mundo ou de quaisquer olhos ou sem o
respeito devido àquela mãe já tão cheia de pecado. “Por que será que nossa mãe reza tanto? Pra que tanta oração nessa casa
sem roupas, sem calçados, sem água, sem comida...? Ninguém vai trabalhar mesmo,
estudar... nem pensar, procurar serviço... o que temos dá pra comer de vez em
quando, ver televisão, andar por aí...” Decididamente, sua família nascera
acabada. Teria sido uma família? Poderia ser?
Saída da
favela onde vira sua mãe sofrer as mesmas suas dores, as incertezas, ao lado de
um homem que nunca comparecia senão para emprenhá-la, depois, só o veria na cadeia,
ludâmbula, desejando não-ter-feito-isso, não-ter-feito-aquilo,
não-ter-tomado-isso, não-ter-usado-aquilo... não ter roubado, nem ... Uma
visita outra gravidez. Mais um filho-homem. Ainda mais os sete irmãos. “Oito filhos.” Muitos homens em sua vida.
Nenhum seu.
Vez-ou-outra
vinham-lhe à mente pensamentos mais torturantes que seus desejos incestuosos, “Não, mãe! Não, pára, não quero!” conspurcados. Custa-lhe crer que bolinara seu
filho, “ filhinho...” — por que não
lhe morre o marido? “De que me serve
aquele homem?” Metido sempre na cadeia, quando não estava sempre
rescendendo a álcool, e o cheiro nauseabundo de erros e crimes e perdições e
ausências, “meu Deus!”. E o que fazer
se, no auge de seus trinta-e-seis-anos, embora aparente velhice, apenas via
todo o dia pênis e mais pênis em formação, uma lindeza atrás da outra, um amor
atrás do outro, amamentação, banhos, perdidos olhos, vacilantes mãos “as partes têm que ser bem lavadas ... por Deus!!! O que estou fazendo? Será que
fiquei louca?! Meu Deus, me dê a morte, que seu perdão nunca hei-de pedir.” Choro
convulsivo, mas insuficiente. Embora verdadeira galinha protegendo seus
ovos-futuros-pintos. Seus. Precisava decidir sobre aqueles desejos. Não poderia
mais ver os pênis impúberes de seus filhos. Como conseguiria perdão? Mereceria
alguma indulgência?
Lembrou-se do
esconderijo que o marido fabricara num daqueles dias “sonhava uma vida melhor pro
Idimar, pro José, pro Itamar, pro Rômulo, pro Gílson, pro Ivan, pro Francisco,
e pro caçula a-caminho” , vasculhou correndo o local, “... guardou em algum lugar por aqui...” alçapão improvisado dentro
do armário do banheiro, longe da criatividade da polícia local, longe também
das mãozinhas ágeis de seus filhotes, longe ainda do medo injustificado da
esposa, por certo, “estaria carregada?”
Encontrada a arma utilizada no primeiro assalto bem sucedido, empunhou-a, enfiou-a
garganta adentro, num gesto automático, uma tentativa frustrada, mas, a
segunda, nem sentiu a queda fatal ao chão, não conseguira ver seu bebê
Francisco sem fralda correndo em sua direção, solicitando asseio.
Inocentemente, reage em prantos, não mais a mãe para tatear-lhe as nádegas, não
mais a proteção, não mais os doces lábios em seu corpinho. Sem saber o que
dizer, sustenta-se na porta entreaberta, rosto lambuzado de catarro escuro pela
gripe incurável: “Mamãe morreu! Mamãe
morreu!” Os outros irmãos foram chegando, instalou-se um choro nunca
chorado apesar da às-vezes-fome, da às-vezes-dor, da pobreza de vida, do
pai-nunca, das ausências-todas... apesar de tudo. Dominando a área, o filho
iniciante a prostituto... Não era muito? Dúvidas... “Por quê? Por quê?”
Ninguém jamais
suspeitara dos motivos que a levaram ao suicídio — decerto, a dor de ver-se só,
o marido sempre atrás das grades. Ou...
“Não queria a dor da vergonha de ver-se
vasculhada por essa vergonha!” Por fim, inumados seus medos, sua dor, todos
os seus erros mais secretos, pelo senhor dos desgraçados.
- Hilda Curcio
Comentários
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que ilustração maravilhosa, adorei a expressão do menino.Obrigada, Cláudio Feldman. Hilda Curcio