Cristina - por Roberto Prado


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Cristina
  
Saiu do banheiro em direção à cozinha. Preocupado, tremia e suava a camisa já estava empapada. Acendeu a luz e dirigiu-se ao armário. Olhou para dentro, tirou as latas de ervilhas, de milho verde, palmito, sardinha... Esvaziou o armário todo. Todas as latarias largadas e espalhadas pelo chão. Algumas ainda estavam rolando de um lado para o outro.

- Que diabo, onde ela foi se enfiar?

Foi à sala. Levantou os tapetes, empurrou os sofás, quase deslocou o ombro direito tentando empurrar a estante para outro lugar. Dolorido, resolveu retirar os livros, um a um, para poder procurar com mais cuidado. Nada encontra. Volta a sua frustração a TV, com um exemplar de a Divina Comédia (capa amarela, livro antigo comprado há muito tempo) joga contra o tubo de imagem, provocando grande barulho e sujeira com os estilhaços do vidro.

Os vizinhos debaixo preocupados com o barulho imaginaram:

- Estão de mudança!


No chão uma pilha de livros. De todos os tamanhos e cores. Ele estava no momento em sua “fase” azul[1]. Nada.

Vai ao quarto, levanta a cama de casal e a encosta na parede. Abre o guarda-roupa, retira de lá todas as peças, e as espalha. Camisas, cuecas, calças, paletós, tudo espalhado pelo quarto.

- Com essa bagunça vai ficar mais difícil achar alguma coisa.

Volta à cozinha. Abre as gavetas de talheres, joga tudo para o alto. Facas, garfos, colheres tudo voando como num furacão. As panelas seguem o mesmo destino, espalhados pelo chão. Volta à sala. Começa a arrancar as cortinas, pelos trilhos.
Mais barulho. Olhando para dentro do apartamento teríamos a impressão que ali houvera um incêndio, ou qualquer outro tipo de desastre.

Arrancando os cabelos do peito (haja vista que já era calvo), ele volta para no centro da sala e começa a olhar para os lados. Tentando imaginar um canto qualquer que ainda não tivesse sido revistado. Dando um tapa da cabeça ele volta para o banheiro. Com uma força sobre humana ele arranca o vazo sanitário. Chacoalha o vazo. Olha para dentro dele. E por fim arrebenta-o jogando contra a parede ladrilhada.

Embaixo os vizinhos começam a se preocupar.

Os ladrilhos começam a cair, a princípio um a um. Logo uma chuva de ladrilhos inunda o chão do banheiro deixando as paredes em petição de miséria.

Então no meio do entulho surge uma barata cascuda, suja, imunda e repugnante. Vendo isso ele grita:

- Cristina, onde você se enfiou dessa vez???

Abrigando-a carinhosamente em suas mãos, ele a banha com suas lágrimas

- Cristina, Cristina, Cristina...

[1] No mínimo aprendeu isso com o Vadinho!

Comentários

Alexandre Costa disse…
Conto muito bem articulado...