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CASULO - Ed. Costelas Felinas / http://artesanallivros.blogspot.com.br |
Por meio de seus versos, Casulo
envolve – aprisiona, abriga e liberta – gradativamente. Esta é, sem dúvidas,
uma obra que trata da multiplicidade de emoções vivenciada e compartilhada pela
autora, após uma grande perda: dor, saudade, solidão, incompreensão,
insanidade, incerteza, dentre outros anseios. Essas emoções eclodiram, em
grande parte, por conta da (in)existência de uma pessoa notável que atendia
pelo nome de Rodrigo Sena.
Shauara e Rodrigo tinham (e
provavelmente têm) uma relação muito próxima, que já havia percorrido diversas
tipologias – dentre amor e amizade, carne e espírito. Tal unicidade provocara
grande baque – ainda em vida e – após a morte de Rodrigo. Ele era parceria,
inspiração, réplica. Mas de forma súbita, foi-se; gradualmente, ia-se Shauara.
Casulo elucida
características da autora, uma observadora da vida, da natureza, dos comporta-mentos.
Alguém que não se importa com a conclusão, alguém franco a ponto de ser cruel. Casulo nada mais é do que um
tributo à saudade, recheado de autenticidade, medos, fluidez, loucura e
sobriedade.
Casulo é mais que uma cápsula, mais
que um esconderijo; ele é um envoltório construído pela autora para que pudesse
passar por um processo de transformação constituído por fases bem distintas,
propositadamente, a posteriori: o primeiro momento, de olhar melancólico e
confuso; o segundo, de apreensão e compreensão da loucura; o terceiro, de
aceitação, idealização e esboço de retomada. Há, ainda, a presença de acidez e
críticas em todas as etapas, experiências de sempre.
No
primeiro momento, pela proximidade com a perda e pela confusão mental
consequenciada, submerge-se nos pensamentos, não se separa sonho da realidade.
Aqui, nesse lugar imaginado, não se foge dos sentimentos, pelo contrário:
mergulha-se neles e se revive o quanto quiser. Atordoada, inicia então um
período de reclusão, um estado de dormência, um vazio, uma hibernação. A vida, para ela, congelara por alguns
instantes. Seu olhar mudara. Agora sentia medos e sintomas outrora
desconhecidos; o tempo lhe custava a vida e sua franqueza não lhe permitia
perder tempo com coisas desinteressantes.
O segundo momento teve como
resultado o “elogio da loucura” - cujo título é uma referência direta a Erasmo
de Roterdã -, um conjunto de sete poemas subintitulados “loucura de alguma
coisa”, pesquisa intensa (e insana) de quase seis meses. A “loucura da morte”
apresenta uma visão
pessimista da vida por decorrência da certeza da morte, trata dos vícios e da
sobrevalorização da memória do ser; é também previdente, já que por meio de
abraços e textos, adiantam-se e se garantem as despedidas. A “loucura surreal”, por sua vez,
trata de questões generalistas e condicionais (conjunções subordina-das). A “loucura do mundo” aborda a insegurança, o
ocultismo, a proteção – com total inversão de valores, segurem suas mentes! A “loucura da arte” é presente
do indicativo, é gerúndio, ocorre e pulsa agora! Na “loucura dos outros”
questiona-se a relação entre a loucura e a razão, além da criati-vidade. A
“loucura da loucura” apresenta diversas definições de loucura:
ela é intrínseca, é vício, dilacera. Fecha-se sua enumeração com a “loucura da vida”, a
maior das loucuras!
O terceiro momento é caracterizado
pela idealização e pelo escapar. A partir de agora se deixa levar pela
correnteza, assim, para onde se quer, para qualquer lugar. Explora-se a calmaria de
concepção, a incerteza de ação – soa como um “te perdi, me perdi, mas descanse
em paz”. A resignação está presente (por meio da distração, da tranquilidade,
da conveniência e da paciência), afinal de contas precisa-se de pouco para o
alcance da felicidade.
É possível observar a mudança semântica de seus versos, ao longo do
processo, agora mais sóbrios e maduros: foi eterno enquanto durou, mas já é passado;
percebem-se as coisas, admite-se junto ao outro; reconhecem-se nossas
limitações (humanas), insignificância e legado.
Ao longo da obra, críticas não passaram despercebidas: fala-se da falta
de base e êxtase de muitos dos textos publicados por outros; questiona-se a
definição corrente de tempo, bem como sua sobreposição em relação às outras
coisas; tratam-se das individualidades do ser, do preferir, conse-quentes
discordâncias, disputas e hipocrisia.
Interessante sacada para resolução de problema: se não é possível
fazê-lo, leve, pela denotação, que venha então a conotação! A fluidez e
suculência de palavras e atos, dinâmica das cons-truções e reconstruções do ser
– muitas vezes ignoradas ou negadas pela maioria – é relatada com fervor. Eis
minha palavra de que também li palavras propositadamente contraditórias e
ácidas, além de lembranças tenras da infância (brincadeiras, louças, descanso,
despedidas).
A dor e os calos que lhe acompanham
são esmiuçados, para aprender a lidar com isso, para que eles lhe sejam úteis.
Ademais, há um esforço na tentativa de desabafar e libertar-se, de um modo
geral, mas parece existir externalidade que sufoca. Apesar de todo o contexto,
declara-se, compatibiliza-se e energias são conectadas de modo atemporal,
independente do espaço:
“Mais
certa sua existência (mesmo morto) que a minha própria”.
Luiz Carlos Santos Júnior
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