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Casulo de Shauara David - por Luiz Carlos Santos Júnior

CASULO - Ed. Costelas Felinas / http://artesanallivros.blogspot.com.br

Por meio de seus versos, Casulo envolve – aprisiona, abriga e liberta – gradativamente. Esta é, sem dúvidas, uma obra que trata da multiplicidade de emoções vivenciada e compartilhada pela autora, após uma grande perda: dor, saudade, solidão, incompreensão, insanidade, incerteza, dentre outros anseios. Essas emoções eclodiram, em grande parte, por conta da (in)existência de uma pessoa notável que atendia pelo nome de Rodrigo Sena.
Shauara e Rodrigo tinham (e provavelmente têm) uma relação muito próxima, que já havia percorrido diversas tipologias – dentre amor e amizade, carne e espírito. Tal unicidade provocara grande baque – ainda em vida e – após a morte de Rodrigo. Ele era parceria, inspiração, réplica. Mas de forma súbita, foi-se; gradualmente, ia-se Shauara.

Casulo elucida características da autora, uma observadora da vida, da natureza, dos comporta-mentos. Alguém que não se importa com a conclusão, alguém franco a ponto de ser cruel. Casulo nada mais é do que um tributo à saudade, recheado de autenticidade, medos, fluidez, loucura e sobriedade.
Casulo é mais que uma cápsula, mais que um esconderijo; ele é um envoltório construído pela autora para que pudesse passar por um processo de transformação constituído por fases bem distintas, propositadamente, a posteriori: o primeiro momento, de olhar melancólico e confuso; o segundo, de apreensão e compreensão da loucura; o terceiro, de aceitação, idealização e esboço de retomada. Há, ainda, a presença de acidez e críticas em todas as etapas, experiências de sempre.
            No primeiro momento, pela proximidade com a perda e pela confusão mental consequenciada, submerge-se nos pensamentos, não se separa sonho da realidade. Aqui, nesse lugar imaginado, não se foge dos sentimentos, pelo contrário: mergulha-se neles e se revive o quanto quiser. Atordoada, inicia então um período de reclusão, um estado de dormência, um vazio, uma hibernação. A vida, para ela, congelara por alguns instantes. Seu olhar mudara. Agora sentia medos e sintomas outrora desconhecidos; o tempo lhe custava a vida e sua franqueza não lhe permitia perder tempo com coisas desinteressantes.
O segundo momento teve como resultado o “elogio da loucura” - cujo título é uma referência direta a Erasmo de Roterdã -, um conjunto de sete poemas subintitulados “loucura de alguma coisa”, pesquisa intensa (e insana) de quase seis meses. A “loucura da morte” apresenta uma visão pessimista da vida por decorrência da certeza da morte, trata dos vícios e da sobrevalorização da memória do ser; é também previdente, já que por meio de abraços e textos, adiantam-se e se garantem as despedidas. A “loucura surreal”, por sua vez, trata de questões generalistas e condicionais (conjunções subordina-das). A “loucura do mundo” aborda a insegurança, o ocultismo, a proteção – com total inversão de valores, segurem suas mentes! A “loucura da arte” é presente do indicativo, é gerúndio, ocorre e pulsa agora! Na “loucura dos outros” questiona-se a relação entre a loucura e a razão, além da criati-vidade. A “loucura da loucura” apresenta diversas definições de loucura: ela é intrínseca, é vício, dilacera. Fecha-se sua enumeração com a “loucura da vida”, a maior das loucuras!
            O terceiro momento é caracterizado pela idealização e pelo escapar. A partir de agora se deixa levar pela correnteza, assim, para onde se quer, para qualquer lugar. Explora-se a calmaria de concepção, a incerteza de ação – soa como um “te perdi, me perdi, mas descanse em paz”. A resignação está presente (por meio da distração, da tranquilidade, da conveniência e da paciência), afinal de contas precisa-se de pouco para o alcance da felicidade.
É possível observar a mudança semântica de seus versos, ao longo do processo, agora mais sóbrios e maduros: foi eterno enquanto durou, mas já é passado; percebem-se as coisas, admite-se junto ao outro; reconhecem-se nossas limitações (humanas), insignificância e legado.
Ao longo da obra, críticas não passaram despercebidas: fala-se da falta de base e êxtase de muitos dos textos publicados por outros; questiona-se a definição corrente de tempo, bem como sua sobreposição em relação às outras coisas; tratam-se das individualidades do ser, do preferir, conse-quentes discordâncias, disputas e hipocrisia.
Interessante sacada para resolução de problema: se não é possível fazê-lo, leve, pela denotação, que venha então a conotação! A fluidez e suculência de palavras e atos, dinâmica das cons-truções e reconstruções do ser – muitas vezes ignoradas ou negadas pela maioria – é relatada com fervor. Eis minha palavra de que também li palavras propositadamente contraditórias e ácidas, além de lembranças tenras da infância (brincadeiras, louças, descanso, despedidas).
            A dor e os calos que lhe acompanham são esmiuçados, para aprender a lidar com isso, para que eles lhe sejam úteis. Ademais, há um esforço na tentativa de desabafar e libertar-se, de um modo geral, mas parece existir externalidade que sufoca. Apesar de todo o contexto, declara-se, compatibiliza-se e energias são conectadas de modo atemporal, independente do espaço:

“Mais certa sua existência (mesmo morto) que a minha própria”.

Luiz Carlos Santos Júnior


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