Pular para o conteúdo principal

A leitura e a escritura em Roberto de Queiroz por Admmauro Gommes

A leitura e a escritura em Roberto de Queiroz
Admmauro Gommes *

 
Para Horácio, um dos maiores poetas da Roma antiga, a poesia devia “instruir e deleitar, ou deleitar instruindo”. Atualizando esta sentença, diria Roberto de Queiroz que a leitura, para ser eficiente, deve deleitar enquanto instrui.
Em texto publicado na Folha de Pernambuco (15/05/2015, Opinião, p. 8), Queiroz reconhece que “os estudantes da educação básica das escolas públicas brasileiras demonstram não gostar de ler nem de escrever”. Gostar ou não gostar, parece-me não ser bem a questão, mas os motivos pelos quais não se gosta. Na sequência, o autor aponta uma falha que distorce os encaminhamentos oriundos dos tantos encontros pedagógicos que acontecem no âmbito das formações continuadas nas redes públicas de ensino: um evidente afastamento entre a teoria e a prática. Há ainda outros pontos nevrálgicos que inibem o aluno diante do texto escrito, mas um deles se pode destacar com o reconhecimento da maioria.
Uma das constatações mais perturbadoras, para quem pensa em transformar o mundo através da educação, é que nem sempre o problema está com o estudante. É preciso mudar antes a cabeça do professor. Roberto entende que a “aversão à leitura e à escritura por esses estudantes pode resultar do modo como essas atividades são trabalhadas na escola, quer dizer, é possível que elas sejam trabalhadas sem que se leve em conta a realidade etária e sociocultural deles”. Por este prisma, nota-se que a situação é mais intrigante. Sem conhecer “essa” realidade, todo ensino cai no vazio, sem nenhuma ressonância positiva, pois o entendimento do aluno não alcança a linguagem do professor. Enquanto não se aproximarem estes elementos, mesmo com a presença do emissor e do receptor, a mensagem não é decodificada. E, naturalmente, a prática de leitura não proporciona o aprendizado da escritura, como diz o autor.
Neste ponto da discussão, alinham-se Horácio e Roberto. Este defende a leitura como instrumento de prazer (Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem, p.19) e cita Tatiana Belinky, Daniel Pennac, William Roberto Cereja e Marcos Bagno como apoiadores dessa premissa. Queiroz chega à conclusão que ler por obrigação “é um dos motivos para o fato de o prazer da leitura até agora ser pouco acentuado no Brasil e as escolas formarem um número insignificante de leitores” (op. cit. p. 21).
Também entendo deste modo. E acrescento: O prazer da leitura deve contaminar primeiro o professor, depois alastrar-se pelos corredores da escola, envolvendo diretores, coordenadores e, inevitavelmente, o estudante. Se este caminho for percorrido, Horácio e Roberto de Queiroz hão de se contentar.

* Admmauro Gommes
Poeta, professor de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Brasileira da FAMASUL (Palmares/PE)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poema em linha reta - Fernando Pessoa - Interpretação Osmar Prado

Enviado por A. Pastori Abaixo, link para uma brilhante e convincente interpretação - inusitadamente adaptada - do ator Osmar Prado, sobre um antológico poema de Fernando Pessoa.  Para refrescar-lhes a memória, logo abaixo do link está a poesia completa do Poetíssimo de Além Mar. http://www. poesiaspoemaseversos.com.br/ poema-em-linha-reta-fernando- pessoa/?utm_source=feedburner& utm_medium=email&utm_campaign= Feed%3A+ DaBuscaemPoesiaComPoesia+%28A+ Magia+da+Poesia%29#. Vivrun6rTIU Poema em linha reta - Fernando Pessoa Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesqu...

Trajes Poéticos - RIMA EMPARELHADA

rimas que ocorrem seguidamente em pares. ********* os poemas publicados aqui participaram do concurso Trajes Poéticos realizado pelo Clube de Poetas do Litoral - salvo os poemas dos autores cepelistas que foram os julgadores dos poemas.                

Revista temática Cabeça Ativa - BORBOLETAS

CAPA: Nelly Vieira                    R$4,00 (incluídas despesas postais) Nesta edição de nº 22, Cabeça Ativa dá um suave e elegante voo alongando suas páginas em direção ao aconchego sensível das borboletas. Alçamos nosso bailado aos céus a procura de poemas envoltos em aladas carícias e nos quedamos extasiados ante tantos versos ocupados em retratar um compartilhamento íntimo de pétalas afagando pétalas. Por tudo isso, convidamos nossos leitores a aninhar em seus dedos este singelo casulo de papel e a se deleitarem com os surpreendentes adejos poéticos provenientes das infinitas asas sem frênulos deste utópico panapaná literário. os editores   autores deste número: