A sutil diferença entre autor e narrador - Roberto de Queiroz

enviado por Roberto de Queiroz




A sutil diferença entre autor e narrador
 
Roberto de Queiroz*
 
Em artigo publicado no Diario de Pernambuco (18/01/2015), Raimundo Carrero defende a ideia de que o autor de um texto ficcional não é seu narrador. Isso porque, na ótica de Carrero, o narrador é apenas uma personagem, obviamente, eleita pelo autor como a mais importante da obra. Tal importância se deve ao fato de ele ser a voz da narrativa e, consequentemente, atuar como intermediário entre o autor e o leitor. Assim, narrar é incumbência delegada ao narrador. O autor, por sua vez, estará sempre ausente do foco narrativo da obra.
 
Nesse contexto, nossas opiniões se encontram. O autor de um texto ficcional, certamente, não pode ser seu narrador, mesmo se tratando de um texto pautado no verossímil. A verossimilhança não pode ser confundida com a realidade. Do mesmo modo, o autor de um texto ficcional não pode ser confundido com seu narrador. E Carrero é muito feliz ao afirmar que essa é uma certeza elementar da ficção. Mas, para ele, a maioria dos leitores confunde o autor com o narrador, uma vez que a diferença entre um e outro é sutil.
 
No dizer de Carrero, quando o autor é o narrador, a obra deixa de ser ficcional e passa a ser biográfica. De modo que, na literatura de ficção, “o narrador pode ser até mesmo o alter ego do autor, mas não é o autor. Tudo porque a narrativa é uma representação e não uma verdade”, posto como é ficcional. Por esse prisma, o narrador pode ser o autor no caso da autobiografia ou, ainda, no caso da autoficção, em que o autor ganha um alter ego, ou seja, deixa de ser ele mesmo e assume outra personalidade.
 
Porém, a meu juízo, esse “eu” freudiano (ou personalidade secundária), citado por Carrero, pode perfeitamente vir à tona tanto em um texto autobiográfico quanto biográfico. Isso é possível porque, nesse gênero textual, o biografado tanto pode ser seu próprio biógrafo quanto objeto de pesquisa de outro biógrafo. E, em ambos os casos, algum fato da vida do biografado pode ser omitido ou adaptado, caracterizando uma reinvenção da realidade e, portanto, a figuração de outro “eu”.
 
* Poeta, prosador, professor de Português e especialista em Letras. Autor de “Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem”, Livro Rápido, 2013, entre outros. 

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