A lectoescritura como deleite - por Admmauro Gommes

enviador por Roberto de Queiroz


A lectoescritura como deleite
 
 
Para Horácio, um dos maiores poetas da Roma antiga, a poesia devia “instruir e deleitar, ou deleitar instruindo”. Atualizando esta sentença, diria Roberto de Queiroz que a leitura, para ser eficiente, deve deleitar enquanto instrui.
Em texto publicado no Diario de Pernambuco (22/05/2015, Opinião, p. B11), Queiroz reconhece que “os estudantes da educação básica das escolas públicas brasileiras demonstram não gostar de ler nem de escrever”. Gostar ou não gostar, parece-me não ser bem a questão, mas os motivos pelos quais não se gosta. Na sequência, o autor aponta uma falha que distorce os encaminhamentos oriundos dos tantos encontros pedagógicos que acontecem no âmbito das formações continuadas nas redes públicas de ensino: um evidente afastamento entre a teoria e a prática. Há ainda outros pontos nevrálgicos que inibem o aluno diante do texto escrito, mas um deles se pode destacar com o reconhecimento da maioria.
Uma das constatações mais perturbadoras, para quem pensa em transformar o mundo através da educação, é que nem sempre o problema está com o estudante. É preciso mudar antes a cabeça do professor. Roberto entende que a “aversão à leitura e à escritura por esses estudantes pode resultar do modo como essas atividades são trabalhadas na escola, quer dizer, é possível que elas sejam trabalhadas sem que se leve em conta a realidade etária e sociocultural deles”. Por este prisma, nota-se que a situação é mais intrigante. Sem conhecer “essa” realidade, todo ensino cai no vazio, sem nenhuma ressonância positiva, pois o entendimento do aluno não alcança a linguagem do professor. Enquanto não se aproximarem estes elementos, mesmo com a presença do emissor e do receptor, a mensagem não é decodificada. E, naturalmente, a prática de leitura não proporciona o aprendizado da escritura, como diz o autor.
Neste ponto da discussão, alinham-se Horácio e Roberto. Este defende a leitura como instrumento de prazer (Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem, p.19) e cita Tatiana Belinky, Daniel Pennac, William Roberto Cereja e Marcos Bagno como apoiadores dessa premissa. Queiroz chega à conclusão que ler por obrigação “é um dos motivos para o fato de o prazer da leitura até agora ser pouco acentuado no Brasil e as escolas formarem um número insignificante de leitores” (op. cit. p. 21).
Também entendo deste modo. E acrescento: O prazer da leitura deve contaminar primeiro o professor, depois alastrar-se pelos corredores da escola, envolvendo diretores, coordenadores e, inevitavelmente, o estudante. Se este caminho for percorrido, Horácio e Roberto de Queiroz hão de se contentar.

Poeta, professor de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Brasileira da FAMASUL (Palmares/PE)

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