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Gerundismo: atentado gramatical ou questão cultural? - por Roberto de Queiroz*

enviado por Roberto de Queiroz


Gerundismo: atentado gramatical ou questão cultural?
Roberto de Queiroz*


A revista Nova Escola publicou um texto da jornalista Dad Squarisi, titulado Gerúndio assassino. Como de costume, ali a autora faz comentários preconceituosos e se acha no direito de ridicularizar os falantes nativos do Brasil. O texto foi publicado em setembro de 2004, mas a discussão continua atual. Segundo Squarisi, “telefonistas, secretárias e profissionais de telemarketing parecem ter recebido o mesmo treinamento. E assimilado o mesmo vício. Trata-se do gerundismo. Fruto de traduções malfeitas do inglês, o intruso que quer roubar o lugar do futuro da nossa língua”. E prossegue: “O gerundismo avança [...] nas conversas da meninada. Pior: até nos bate-papos de professores. [...] atentado gramatical”.
Atentado gramatical? Mas a que gramática Squarisi se refere?
Segundo Maria Helena de Moura Neves, quando se fala em gramática, é preciso dizer claramente de que gramática se está falando, exatamente. Para ela, “é possível ir desde a ideia de gramática como mecanismo geral que organiza as línguas até a ideia de gramática como disciplina”. Nesse último caso, Neves assegura que não se pode estacionar num conceito único, pois são muitas as lições que a gramática de uma língua pode fornecer: na concepção normativa, a gramática é um conjunto de regras que a pessoa deve aprender para falar e escrever bem uma língua; na concepção estruturalista, a gramática é uma descrição das formas e estruturas de uma língua; na concepção gerativa, a gramática é um sistema de regras que a pessoa aciona intuitivamente ao falar ou entender a própria língua; e assim por diante.
Conforme Irandé Antunes, “todo falante, por mais analfabeto que seja, tem pleno domínio da gramática natural de sua língua”. Além disso, as regras da linguagem escrita não caminham desvinculadas das regras da linguagem oral, uma vez que a linguagem escrita não é uma realidade monolítica e, por seu lado, tenta representar os elementos da linguagem oral. E Squarisi não explicita isso em seu texto. O que nos leva a crer que ela desconsidera a existência da gramática inata dos usuários da língua a que se refere e as tantas concepções de gramática nela predominantes.
Ora, não há de ser o não uso de gerúndios que fará os brasileiros passarem a falar e escrever “melhor”. “A adoção e o aportuguesamento de palavras e expressões estrangeiras são oriundos da prosaica e de uma inevitável pressão cultural e econômica” (Nelly Carvalho). Logo, “traduções malfeitas do inglês” quase nada têm a ver com os gerúndios que arribam aqui e ali.


* Poeta, prosador e professor de Português. Autor de “Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem”, Livro Rápido, 2013, entre outros. 


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