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A QUESTÃO ORTOGRÁFICA - por Anderson Braga Horta



A QUESTÃO ORTOGRÁFICA
 Anderson Braga Horta

Venho-me manifestando publicamente, desde 1991,* sobre o semivigente Acordo Ortográfico. O adjetivo tem cabimento porque, em verdade, nem todos os países lusófonos levaram a termo o processo de aprovação, a obrigatoriedade no Brasil foi diferida para daqui a alguns anos (este artigo, a propósito, vai vazado na medida velha), as novas normas continuam mal vistas em Portugal, e mesmo aqui a recepção de algumas das mais importantes dentre elas tem sido nitidamente negativa. As divergências são tantas e tão significativas que o que deveria ser de fato um Acordo acaba se tornando numa Questão Ortográfica.
Não pretendia voltar ao assunto. Nem reivindico nenhuma qualificação especial para dele tratar. Penso, aliás, que a tanto se qualifica todo usuário pensante da regulamentação ortográfica; e creio poder-me incluir nessa categoria, escritor e professor de português que tenho sido desde a juventude. Se agora volto à carga é porque aflorou recentemente, no Congresso Nacional, movimento para que se proceda a uma revisão do Acordo, adotado oficialmente, na prática, até agora, apenas em nosso país.

Argumenta-se em sua defesa que as mudanças acordadas foram de pequena monta, afetando apenas 0,43% do vocabulário brasileiro (contra 1,42% do português); mas o problema não é a extensão do mudar, é o mudar para pior... A base maior de minhas discordâncias é a falta de lógica de algumas dessas mudanças. Não que tal absolutamente inexistisse na regulação anterior; é que certos ilogismos se agravam na atual. Nada prejudica tanto o aprendizado quanto a ilogicidade. Lembre-se a tendência infantil a normalizar, por exemplo, a conjugação de verbos irregulares... Não há muito a fazer, quando se trata de “desvios” ou “sinuosidades” atribuíveis à tradição ou à índole do idioma; em matéria ortográfica, em que o peso da convenção tem força, é relativamente largo, porém, o horizonte das possibilidades. A norma ortográfica havia de ser tão lógica quanto possível, e as exceções, reduzidas ao mínimo inevitável. Perdeu-se a oportunidade de aplainar um pouco o terreno; pelo contrário, acrescentaram-se-lhe acidentes; ao invés de simplificar, aqui e ali se complicou.

Incongruências Acentuais

Aboliu-se o acento agudo nos ditongos oi e ei para indicar vogais básicas abertas, nas palavras paroxítonas.  Uma pena, porque esse diferencial gráfico vai fazer falta, vai haver confusões. Ele não apenas distingue o som aberto do fechado, mas contrasta palavras homógrafas de pronúncia e sentido diversos, como apoio/apóio, leia/Léia. A justificação é a existência de “oscilação em muitos casos entre o fechamento e a abertura na sua articulação”. Ora, não seria mais lógico permitir continuasse cada país a acentuar as palavras em que há essa oscilação conforme as pronuncia? Foi, mutatis mutandis, o que fez o legislador ao permitir a persistência das grafias Antônio e António, tênue e ténue, mais um sem-número de outras.
 Não contente, contudo, o legislador ortográfico mantém o diferencial nas palavras oxítonas e monossilábicas. Assim, temos agora herói, mas heroico, ambos de tônica aberta; comboio (verbo, ditongo aberto), mas bói (aportuguesamento do inglês boy), e assim por diante. Tem lógica?

Acentuações Duplas, Grafias Triplas...

Num documento que se propõe unificar a grafia das palavras em todas as nações lusófonas, chamam a atenção o número e a discricionariedade das exceções. Pode-se acentuar amámos, para distinguir o presente do pretérito, ou manter amamos para ambos os tempos; grafar Davi ou David, Jacó ou Jacob, ou Job (como únicas exceções a uma regra foneticamente retrocessora), mas Josafat é sempre com t final, ainda que entre nós o nome seja sempre dito Josafá; escrever buganvília, buganvílea ou bougainvillea; rua Direita ao lado de Rua Direita, e por aí vai. Dá pra entender?

Tremer ou Tremar?

Não há por que tremer ante o espantalho do trema. É só um espantalho mesmo, em que os pássaros sabidos pousam na paz de Deus. O trema tem função, e tem utilidade! Ao contrário de embaraçar, como tantos afirmam, ele auxilia o leitor, mostrando-lhe quando o u das combinações gu e qu é pronunciado. Não há dificuldade na compreensão de seu emprego. A dificuldade está, sim, na compreensão do emprego daquelas combinações; quem não o aprendeu não saberá como usar o trema. Para quem escreve Portugual (tive concluintes do Curso Normal que cometiam essa barbaridade!), o trema é realmente de quase impossível entendimento. Então, qual o sentido de eliminá-lo? Sermos originais? O trema continua existindo, com diferentes valores, no espanhol, no francês, no italiano, no alemão... Não me consta que por aí estejam tramando aboli-lo.
Em breve estaremos dizendo trankilo, tendência que já existe, talvez devida a influência de nossos vizinhos de fala castelhana. E quando o poeta quiser indicar que a palavra saudade, em determinado verso, deve ser pronunciada como um tetrassílabo, isto é, com hiato e não com ditongo, que haverá de fazer? Eis aí uma simplificação que complica.

Digressão Pitoresca

Não está nas fundamentações do Acordo (embora as primeiras intenções fossem mais radicais, no particular), mas tenho ouvido, de defensores da abolição do trema e dos acentos, que eles seriam um obstáculo à difusão do português além das atuais fronteiras lusófonas. Ora, não nos iludamos; os obstáculos são outros. Aprende-se, quando convém, o grego, o russo, o búlgaro, que usam alfabetos não latinos. Aprende-se o alemão, apesar de suas assustadoras palavras justapostas. Aprende-se o chinês! o japonês! Aprende-se até o javanês de Lima Barreto... Nem por sua graciosa letra eñe chega o espanhol a assustar o estrangeiro. O francês, não obstante sua multidão de agudos, graves e circunflexos, dominou o mundo. Cada idioma, vivo ou morto, é um planeta no sistema lingüístico –se não um sistema à parte–, que é possível conquistar. Em havendo motivação econômica (ou mesmo cultural, minoritariamente), aprende-se até o marciano, que não existe...

O Bicho-Papão Chamado Hífen

Se o trema é um falso problema, o hífen é de fato uma dificuldade notável, um verdadeiro bicho-papão. O problema não foi resolvido; nem sei, admito, se isso era possível, mas acho que foi de certo modo agravado. Concordo em que seja desejável unificar certas normas, mas unificar por unificar não interessa. É preciso fazê-lo pelo melhor padrão. E não creio que isso tenha ocorrido.
Até ontem, dispensávamos o hífen em microonda e antiimperalismo sem nenhum pudor de dobrar vogais. Havia hífen, contraditoriamente, em contra-almirante, para ficarmos num exemplo. Tenho dúvida quanto à sabedoria da solução que manda botar o famigerado tracinho em todos esses casos; não seria melhor o oposto? Alguém me aventa uma razão... estética. Mas acaso ficou mais bonito contrassenso?
Até outro dia, pé-de-moleque levava hífen, se queríamos o doce e não o apêndice locomotor do menino de rua. Tinha lógica distinguir graficamente o nome do petisco da soma dos vocábulos que o compõem. Hoje só cabe distinguir com a hifenização, dentre as palavras compostas “ligadas por preposição ou qualquer outro elemento”, as que designam espécies da fauna ou da flora. Assim, melão-de-são-caetano, andorinha-do-mar e bem-te-vi têm hífen; rabo de arraia (golpe de capoeira), ouro de gato (mica amarela), ouro de tolo (pirita) não. Mas não é o mesmo tipo de composição?  Mais uma vez a lógica foi ferida. Se se trata de compostos por justaposição, sem nenhum elemento de ligação, mantém-se a norma velha: boa-noite é com hífen, seja cumprimento ou planta, e isso é correto, pois em ambos os casos há “unidade sintagmática”. E o inferno do hífen fica mais quente com a mistura de critérios.
Paro por aqui. Não tinha nem tenho a pretensão de esgotar o assunto, apenas quis pinçar alguns dos itens mais importantes, para dizer da conveniência e oportunidade da revisão do Acordo. Nem se veja nisto menoscabo algum ao imenso trabalho dos ilustres estudiosos que o prepararam; apenas insisto em que o resultado desse trabalho não foi suficientemente discutido antes de nos ser imposto. E não é bom, acrescento.
  __________________________________________________________
* No extinto jornal brasiliense BsB, em 13 e 20.10.1991, no também extinto D.O. Leitura, de São Paulo, em janeiro de 1993, no livro de Alan Viggiano Dossiê Grupo dos Sete: Os Povos e Países de Língua Portuguesa (André Quicé, Brasília, 1994) e no Jornal da ANE,  n.º  5, de nov.-2007, e n.º 32, de fev./mar.-2010. Na internet: Jornal da Besta Fubana (www.jornaldabestafubana.blogspot.com) e Nós – Fora dos Eixos (www.nosrevista.com.br), edições de 5.1.2010.

postagem enviada por Anderson Braga Horta
do livro DO QUE É FEITO O POETA

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