NETO E A BOCA DO MONTE, de Lucas Visentini

O autor Lucas Visentini apresenta seu belo trabalho infantil NETO E A BOCA DO MONTE - ilustrações de Filipe Furian, aqui no Blog Moviment Cult.
Ao ler pude voltar à imaginação da qual toda infância desfruta. 
Viaje na história Neto e divirta-se com suas indagações...  


 NETO E A BOCA DO MONTE, de Lucas Visentini
            A curiosidade e a inteligência eram as principais características de Neto, um menino que, com apenas oito anos de idade, já fazia perguntas que deixavam seus pais e professores em dúvida ao tentar respondê-las. De tanto questionar, certo dia descobriu que seu verdadeiro nome não era apenas “Neto”, como todos o chamavam, mas, isto sim, “Aquilino Centurião Neto”. “Uma homenagem ao seu avô paterno”, explicou-lhe a mãe. Portanto, seu primeiro nome era “Aquilino”, mas, para distingui-lo de seu avô, chamavam-lhe de “Neto”.

            Para ir à escola Neto passava, com sua bicicleta, por diferentes caminhos. Logo após sair de sua casa, pedalava por uma estrada de chão até chegar a uma rua asfaltada. Ao andar pelo caminho de terra, percebia que as rodas de sua bicicleta esmagavam pequenas plantinhas e pedregulhos, fazendo com que o caminho por ele percorrido ficasse marcado na estrada.   Geralmente guiava a bicicleta em linha reta e, ao olhar rapidamente para trás e ver o rastro deixado pelas rodas, exclamava para si mesmo: “reto como uma cobrinha esticada!”. Como se fosse um “i”. Porém, às vezes, serpenteava o caminho com sua bicicleta andando de um lado para outro, ziguezagueando pela rua e, ao perceber as marcas deixadas pelos pneus ao longo do percurso, pensava em voz alta: “até parece o rastro deixado por uma cobrinha!”. Como se fosse um “s”.
            Portanto, havia duas possibilidades existentes toda vez que Neto olhava para trás e via as marcas que sua bicicleta deixava no caminho de terra: o “i”, como uma cobrinha esticada, e o “s”, como o rastro de uma cobrinha que por ali tivesse passado.
            Ao chegar à rua asfaltada, porém, as rodas de sua bicicleta não mais deixavam marcas na estrada. Sem cobrinhas esticadas ou rastros de cobrinhas, ou seja, sem “i” nem “s”, somente o asfalto e a bicicleta. E o próprio Neto, é claro! Ao pedalar pelo asfalto em direção à escola, Neto costumava prestar muita atenção aos pequeninos milagres que a natureza lhe apresentava durante o caminho.
            Havia, por exemplo, pequenas rachaduras nas calçadas que beiravam o asfalto, as quais se pareciam muito com raízes de árvores que se alastravam, formando pequenas brechas que eram ocupadas por florezinhas oportunistas. Neto admirava a ousadia daquelas plantinhas que ali haviam nascido sem que ninguém as tivesse plantado. Podia percebê-las por entre as rachaduras do concreto, como se quisessem abraçar cada raio dourado de sol que rasgava os céus.
            Havia também os montes que circundavam a sua cidade, erguendo-se contra os céus, quase alcançando as nuvens. As elevações possuíam forma arredondada em seu ponto mais alto e, por isso, Neto sempre as comparava às corcovas de um camelo. Ele assim pensava, ao brincar com a imaginação: “os montes são as corcovas de um camelo gigante que deitou e nunca mais se levantou”.
            Aliás, por falar em montes, certo dia Neto se assustou ao escutar uma conversa de sua mãe que falava ao telefone. Ela assim dizia: “sim, senhor, isso mesmo! Moramos em Santa Maria. Santa Maria da Boca do Monte. O senhor pode enviar a encomenda pelo correio…”, mas Neto não conseguia mais prestar atenção à conversa, pois ficou assustadíssimo. Os montes ele sabia onde ficavam, observava-os todos os dias ao ir e ao voltar da escola, inclusive havia inventado a historieta que afirmava que os montes eram as corcovas de um camelo adormecido que havia deitado e nunca mais se levantado.
            Mas e a boca? “Mas onde é que fica a boca desse monte, meu Deus!?”, perguntou-se Neto, intrigado. E, espantado, arregalou os olhos porque pensou que, se a boca fosse proporcional ao tamanho dos montes, então deveria ser uma bocarra, ou seja, uma boca muito grande. Assim, questionou-se, ao pensar nos montes que rodeavam a sua cidade: “será que algum dia a boca do monte vai me comer? E se a boca de um desses montes me engolir?”. Neto imaginou que as bocas dos montes se localizavam lá em cima, no topo, e, por isso, não conseguia vê-las.
            Porém, ao pensar na possibilidade de as bocas estarem próximas aos caminhos pelos quais ele passava todos os dias ao ir e ao voltar da escola, interrompeu a conversa telefônica de sua mãe e contou-lhe assustado tudo o que havia pensado. “Calma, meu filho! Não é preciso ter medo”, disse a mãe, sorrindo. “A nossa cidade é conhecida como Santa Maria da Boca do Monte porque se localiza em uma região rodeada por montes. Os montes aqui não têm boca, muito menos bocas que comem crianças... não te preocupes, é apenas um modo de dizer”, explicou-lhe a mãe, admirada com a fértil imaginação do filho.

             Neto, aliviado por ter compreendido que os montes em sua cidade não possuíam bocas, muito menos bocas gigantes que engolem crianças, continuou indo e vindo com a sua bicicleta, ao observar os pequeninos e grandiosos milagres da natureza. Sempre curioso. Sempre “Aquilino Centurião Neto”, ou melhor, “Neto”.

postagem enviada pelo autor

Comentários

Anônimo disse…
Rsssss. Me lembrou de como eu era fertil em absurdos quando criança. Gostei da historia. Parabéns. Pamela Andrade
Lucas Visentini disse…
Obrigado, Pâmela!

Fico feliz por saber que tu gostaste da história.

Abraços carinhosos,

Lucas Visentini