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MULHER MILONGA - Renato Jacob Schorr



 Do lombo do desvario, o louco construiu a sua teoria sobre a mulher e a sustentou até o findar de seu tempo, nestes planos terrenos, insistindo que a milonga é a própria mulher. Indagado, perquirido, instado, insultado e tantas blasfêmias mais, o “elétrico e desmedido desajustado das ideias” ergueu a sua bandeira e deixou que o mastro a sustentasse em seus “arreios”. No primeiro enfoque, destacou o bailado no andar! Afoitas e afoitos restaram de olhares esbugalhados, imaginavam viesse com ofensas gravosas. Já no segundo viés, arguiu ser a mulher uma milonga, nos “douces” sorrisos, em rosto multifacetado, fosse a construção de uma face plural, uma amalgamada colorida (com todas as epidermes), produzindo efeitos contra os rancorosos raciais. O genioso continuou a sua caminhada e fez da mulher a próprio milonga. Se possui bailado no andar, disse, andejante, com o gingado, torna-se uma pérola, uma cobiça! Mas logo, explicou, cobiça no sentido belo da palavra! E suplicou, jamais desvirtuam do sentido. Seguindo o seu norte, elevou a mulher milonga para o firmamento e construiu com ela a própria lua. Velhas matutas, descompromissadas, lindas moças e senhoras altivas, todas, em entreolhares perturbantes, imantaram. A mulher milonga... a própria lua! Loucos são loucos e deles tudo pode provir. Sorriu orelhas e elevou o olhar no meio da noite, quando a lua escancarava a face roliça. Soltou a mais alegre gargalhada e sumiu, para retornar depois, ilustrando a sua tese. As mulheres se dizem belas e não se pode negar esse atributo, deem-se o direito de apreciar a beleza da lua, entrelaçada de estrelas, é magnífica. Explodiu!Portanto, mulher milonga, magnífica, bailante, multifacetada, com gingados e ainda pérola!!
Os seus argumentos pareciam não ter fim e fez da mulher milonga, um violão! Desta feita, os protestos irromperam, em especial, dentre as chamadas modelos, desses desfiles “esnobes”. Isso para espanto do tresloucado, pois, descompreendia ele, a luz destes desgostos, sequer tivera oportunidade de alongar o queixo e expressar suas cismas. As bocas ressequidas silenciaram, para “gáudio do cantor” e o pobre andarilho retomou a sua jornada em estribilhos próprios, soltando a língua para o seu público inexistente: a mulher milonga é mesmo um violão. Completou: pernas adornadas, corpo sinuoso (tal os rios de montanha), salientes protuberâncias na região afivelada, uma face peitoral frondosa, rosto alegre e risonho e cabelos alongados, lembrando as águas em queda, tal véu de noiva! O turvo da noite, aplaudiu, misericordiosamente, o assombrado e desmedido desvairado. Quase taciturno, mas em tom eloquente, arrematou: oigalê mulher milonga, ainda hei de vê-la confabulando com a lua. Sob uma tênue névoa, ao pé do morro, o seu mouro fanfarrão relinchava insistentemente. Ao se aproximar do amigo de tantas jornadas, percebeu que ele estava a anunciar a presença de uma estrela. Alçou a perna e, sob o pala esvoaçante, o louco partia em lua de mel! -

 Renato Jacob Schorr

texto publicado no jornal O NHEÇUANO
ANO 8 - NÚMERO 33 - ROQUE GONZALES, RS - MARÇO/ABRIL 2017
postagem enviada por Nelson Hoffman

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