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ANTROPICOS - Henrique Pitt


O Livro é dedicado ao humano, em sua complexidade ontológica, na visão de alguém que já foi humano e superou a restrição evolutiva da espécie, pela capacidade ilimitada descritiva/sensitiva de criar dotado de uma lupa mágica, onde é impossível discernir até onde alcança uma perceptividade magnífica pela constante do enigma, a partir dos inevitáveis encontros e desencontros. Henrique Pitt não só brinca com as palavras, como tem a propriedade de esmiuçar até mesmo o inconcreto: “o tempo passou. Com sua pressa e sua calma inabaláveis” começa logo a tirar o fôlego do leitor desavisado, achando que ali segue um texto comum, com base pronta para ser digerida, completamente desenhada. A essência, porém, é incompleta, pois “fica faltando terminar o início, ninguém consegue iniciar a história.” Assim “com palavras que dizem especificamente nada” ele compartilha o além de si mesmo, no âmago profundo de sua poeticidade impecável.
A narrativa é experimentalmente inovadora! Embora o autor seja um “interiorano de alma” e simples de coração, sua poética simplifica apenas pela originalidade, sendo cada frase uma riqueza infinda de sensações. Mesmo que não houvesse uma gota de tinta sequer, ele saberia ser poeta, simbolista e nos adornar de amores, embora somente percepções aguçadíssimas notassem as suas flores lindas! Debruçar sobre a obra de Henrique não é a sorte de qualquer acaso, mas simplesmente um presente raro diluído na catarse de sua genialidade, ironia e tempero. “Seria o passo da humanidade, ou um sabatino passeio de descanso divino que, por descaso, tropeça no próprio cadarço?”
Não é uma obra fácil de compreender, já que “a sola dos pés não toca o solo nem os céus de outrora”, mas fluido de sentir, afiado da rica semântica, sendo portanto, um banquete linguístico pela beleza tão singular, que convida e  impulsiona o leitor ao deleite de uma caminhada contemplativa de sentidos, neologismos e graciosidades.
 “ aquele gosto do café naquela boca - na tua boca - quente, misturado aos aromas da manhã que ventam dos cabelos molhados e do pão e do dióxido de carbono. Eu poderia ser isso, tudo.” Seria possível pois “Havia claridade confusa no dia. Haviam todas as temperaturas, todas as horas, todos os cheiros de flores e de lixos. Havia ar em movimento. Havia verde e cinza. Havia brisa. Mas a janela estava fechada.” O autor absorve as partículas invisíveis e as transforma em vida e cores ao redor, podendo inclusive prever o acontecimento vindouro: “As incongruências, que constroem qualquer quadrante visível, colocam um gari varrendo os restos de uma civilização que existiu ali, nos arredores daquela poça, há mais ou menos dez horas, e um automóvel que pretenderá estar estacionado sobre isso nos próximos instantes”.
É como se um ponto sempre relevante, alojado em sua retina, produzisse até mesmo o som: “a superfície lisa dos dedos da folha enfim solta a gota que cai sem obstáculos em direção aos olhos que não a veem, o corpo projeta-se em direção ao que vê, e a gota d’água explode em silêncio na madeira do banco, em estilhaços ensurdecedores que não atingem ouvidos mudos, como se os barulhos dos pássaros voassem aos céus em cada respingo daquela gota”. O silêncio melodioso das harpas celestiais sonda de forma inédita, pois as “as coisas que carregam os bons sons raramente nos atingem”.
O construir de seu pensamento é pautado nos signos, abrangendo a realidade aparentemente estática, para dar visibilidade ao sentido na criação de quase indescritíveis ações pulsantes. “Outra noite, até quando, outro escuro. Outro olho, uma luz: um sonho dentro do sonho. Semiótico”. Ou ainda quando transcreve; “O pé na porta, o satélite na lua. A cabeça, na tua, o passo pensado no samba, pro lado errado. O ritmo: é tanto quanto qual encanto nunca mesmo. A rua, sim, era a mesma, lesma, que nunca passa; para!
Os pés descalços, deitados, no asfalto, esfolados; seguem o apelo que não seguido, atropela.” E a sublime conclusão dos ‘redesencontros’; “ do subsolo ainda brotavam gritos como pólen... Quase tudo já havia tido ritmo, meio dançado – meio crucifixo, mas ainda brotavam gritos do subsolo, como se fossem da pele.”
No meio do caminho havia uma peça, cujas cortinas da noite abrem para que o dia surja luminoso. A cena é ininterrupta, e os personagens desarmam pela naturalidade de um Silva, do assobio do sabiá, os apitos que cessam os sons, ventos contundentes, e as palmas das palmeiras. A “sensação de nunca ter visto aquela paisagem tão comum a ela mesma” nos traz o ato contínuo não de um Silva, trôpego qualquer, hora enlouquecido, às gargalhadas pela beleza do canto do sabiá, hora extasiado no meio do limbo silencioso infinito, mas o relato a partir dos elementos em interação surpreendente.
O Encontro desse livro nos presenteia com o delicado surrealismo palpável, generosamente concreto; “a fome era a da noite engolindo a tarde que morria”. Com o observar despretensiosamente crítico, “A primavera desabrocha das raízes urbanas e joga pólen tóxico nas flores que nada observam, apenas querem ser flor.” E a fluidez resignada; “Tudo segue o movimento do astro-mor; tudo segue; tudo cego, gira sempre para o mesmo lado e olha o mesmo ponto que costura a linha do horizonte”.
A talentosa elaboração de Henrique o evidencia com um caráter ímpar, costumeiro aos grandes mestres; “Esteve na ponta da língua, e caiu da boca do povo – bomba, dedo apontado. Teve de quase tudo um pouco, e no final, comoção, acomodação, e a multidão alvejada. Só não teve a emoção que o palhaço almejava, que o picadeiro é o fim da picada.”. Mas afinal, feliz “Sente o vazio da gritaria e o desespero das orações destes cenários iluso-rios que indefinem os sonhos do sono, e todos os descontos recebidos ao longo dos desejos acumularem-se neste momento. Onde estaria aquele sentimento, que agora não lembro se bom ou ruim, alegre ou triste, quieto ou falastrão, tão raro de se encontrar, mas que... curioso... na infância já caia aos tombos comumente sobre os acasos... havia um nome pra isso... isso? o que mesmo?”.
Não é uma obra para ser apenas lida, mas desencontrada de qualquer superficialidade, e encontrada de contemplação. Também não é para ser devorada de um só gole, mas degustada, lentamente, entre pausas e reflexivos devaneios.  Para que o “o sentimento claustrofóbico de estar-se preso em si mesmo e não conseguir explodir-se dia-após-dia” seja superado pelo poder inevitável da literatura. -    - por Shauara David - Jun/2015.

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