PARE OLHE ESCUTE - Hilda Plácido

Ensino

                         Uma vez professora, sempre professora. Confesso que fiquei com os olhos marejados, ao ver a reportagem sobre o estado de abandono do nosso saudoso Colégio Canadá. Já havia lido outras matérias sobre o assunto, sobre escolas depredadas, mas estas ficavam em bairros pobres da periferia. Um colégio como o Canadá, em plena Vila Rica! Não dá para acreditar!
                        Muito se debate sobre o Ensino no Brasil, tanto que a situação ficou paradoxal: muito para falar... nada para falar. A verdade é que o brasileiro está doente e a anamnese já foi feita e refeita. Doente de uma grave doença social, que fiquei conhecendo há alguns dias, lendo uma crônica do Estadão: a anomia (ausência de normas). Ou pensam os nossos políticos que ela não é contagiosa? É!! E está contaminando o brasileiro, enfraquecendo-o de cidadania que – escreve o cronista -  “nada mais é do que um estado de consciência”. A consciência do povo está cada vez mais carcomida pelo ceticismo, pelo desalento, que se abatem, primeiramente, sobre os mais velhos,  mais  esclarecidos, mais sensibilizados. Reparem que estes, penalizados, querendo poupar filhos e netos de  um estado
tão deprimente, acabam assumindo as vicissitudes deles, além das próprias. Tornaram as novas gerações mais apáticas. Para que se esforçar, para que procurar, se os “velhos” assumem tudo, principalmente gastos e obrigações? É uma geração sem finalidade, já que o futuro se avizinha incerto e tarda a chegar. É uma geração sem valores éticos, dignos, que também a escola já não consegue cultuar.
                        E então chegamos a uma “juventude mais do que transviada, amoral, que só pensa em dinheiro, prazeres, que consome drogas, desdenha de tudo, age sem pensar, mata”.
           É um círculo vicioso, pois muitos desses jovens chegam ao Poder por fisiologismo ou corrupção, carregando nas suas bagagens, todos aqueles fatores negativos na construção de suas mentes ou consciências.
                        Há exceções, é claro, famílias que conseguem criar “flores no lodo”, mas a grande maioria da sociedade acaba desrespeitando o sistema legal,  principalmente alguns políticos, os grandes fraudadores, corruptos, criminosos de colarinho branco.
                        Conhecemos de sobra as causas da doença que foram citadas no artigo: “falta de oportunidade, perspectiva, excessiva concentração de renda e o consequente hiato social, deficiência de estrutura básica urbana, desvalorização do Ensino, ausência de limites e punições exemplares”. É claro que há muitas mais e o remédio tem de ser amargo, em doses gigantescas, e está claro que não será ministrado pelo Poder Público.
                        A atitude missionária de cura terá de ser assumida pelas Escolas, pelos órgãos de comunicação em massa, e por aquela faixa da sociedade que, como um sacerdócio, teima em salvar nosso país do estado escatológico em que se encontra.

Costelas Felinas - livros e revistas artesanais

Comentários

clevane disse…
Em que pese denúncia,depoimento,sentimentos da autora,tao lúcidos neste texto,o que ele tem de clareza e estilo.supera o amaro gosto do que acontece.Seria melhor se não fosse veraz e sim,uma ficção.Gostei muito dos comentários,mesmo não conhecendo a escola em questão nem a autora.Pungente e necessário,parabens!